“Abel Xavier escangalhou o meu projecto” – acusa Joao Chissano

. “Se tivesse continuado, teríamos nos qualificado ao CAN”
·         “O futebol nacional está a atravessar seu pior momento

O antigo seleccionador nacional João Chissano, que esteve no comando técnico dos Mambas no período entre 2013 e 2015, tendo levado a equipa de todos nós a uma final do torneio da COSAFA e a um CAN interno, foi forçado a abandonar o comando técnico da selecção após uma série de maus resultados e diz que saiu chateado, porque não lhe foi permitido terminar o projecto de rejuvenescimento dos Mambas, que havia iniciado. A sua frustração foi mais além pelo facto de a Federação Moçambicana de Futebol (FMF) ter contratado Abel Xavier, técnico que, no seu entender, escangalhou o seu projecto. Convidado a analisar o desempenho do seu sucessor, Chissano não tem dúvidas de que a sua prestação foi aquém das expectativas tendo em conta as condições de que dispoe.

Considera que Abel Xavier “foi o treinador com maior número de jogos amigáveis e estágios na diáspora e não só, e foi o treinador com as melhores condições criadas pela FMF, mas falhou, por isso defende que se deveria ter respeitado o contrato por objectivos, celebrado entre as partes, ou seja, demiti-lo. Acompanhe os excertos mais importantes desta entrevista, em texto corrido.

Texto: Neuton Langa

Hoje sem clube, depois de ter treinado na última época no Ferroviário da Beira, João Chissano guarda no fundo do seu coração um certa mágoa como treinador. Em 2015, quando foi forçado a abandonar o comando técnico dos Mambas, encontrava-se à frente de um projecto de rejuvenescimento da Selecção Nacional de Futebol.

Até hoje, não esconde que ficou chateado por não lhe ter sido permitido terminar o seu projecto de rejuvenescer os Mambas, mas mostra-se satisfeito porque o seu trabalho durante três anos não foi em vão, uma vez que, segundo ele, a maioria dos jogadores que hoje militam nos Mambas e são sua espinha dorsal, nacional e internacionalmente, foram lançados por si, oriundos da selecção sub 20 e 23, como são os casos Edmilson e Miquissone, apenas para citar alguns exemplos.

Chissano revela que quando foi contratado para treinar os Mambas, o objectivo que lhe havia sido colocado era de semear as sementes para uma selecção nacional, a médio e longo prazo, que pudesse fazer furor nas competições africanas.  

“Repare que a minha dispensa foi na primeira jornada da fase de qualificação dos Mambas para o CAN, depois de perder contra o Níger em casa. Portanto, havia ainda uma fase por se jogar, e por ter perdido o primeiro jogo, o qual estivemos a dominar totalmente, fui dispensado, depois de terem me pedido para rejuvenescer a selecção”, lamentou.

“Abel Xavier escangalhou meu projecto”

João Chissano conta que ficou mais chateado com o facto de a FMF ter contratado um novo treinador para guiar os Mambas, o qual escangalhou o seu projecto de rejuvenescimento da Selecção Nacional.

Chissano recordou alguns pronunciamentos do actual seleccionador nacional Abel Xaxier que após assumir a equipa de todos nós que terá referido que antes  de assumir o comando técnico dos Mambas, parece que não havia sido feito trabalho nenhum.

Segundo ele, as palavras Abel Xavier soaram como um vitupério e este mostrou estar mal informado e não ter feito bem o seu TPC, pois antes de falar deveria ter consultado a base de dados.

Chissano esgrime argumentos para mostrar que o posicionamento de Abel Xavier não só falacioso como era desprovido de alguma base de sustentação.

“Como é que ele afirma que antes dele no comando técnico dos Mambas não se fazia trabalho nenhum? Para o conhecimento dele, na altura quando se qualificavam apenas 16 equipas, os Mambas conseguiam estar entre as 16 equipas”, retorquiu para depois rematar que “mesmo com o aumento de número de equipas Abel não conseguiu qualificar a selecção para o CAN com todas as condições criadas pela FMF para equipa técnica e em especial para ele, a começar pelo número de jogos amigáveis e estágios que os Mambas tiveram na diáspora”.

“Foi o treinador com as melhores condições criadas pela FMF e mesmo assim não atingiu os objectivos”, desabafou Chissano, para depois acrescentar que os Mambas tinham obrigação de qualificarem-se, “porque quando se aumenta o número de equipas de 16 para 24, é forma de abranger selecções como Moçambique que participa das competições africanas de vezes em quando e parece que mesmo esse estatuto poderá perder”, atirou.

“Não tive mesma base de apoio que deram Abel Xavier”

Num outro desenvolvimento, Chissano recordou que não teve a mesma base de apoio dada ao seu sucessor, Abel Xavier e lembra que teve algumas crispações, na altura, com a liderança da Federação Moçambicana de Futebol devido às condições de trabalho, mas o presidente da FMF, sempre reunia com eles e lhes fazia entender que as condições eram aquelas.

Recorda, por exemplo, que no último mandato de Feizal Sidat como presidente da Federação, naquela altura, este estava preocupado em cumprir promessas do seu manifesto, ou seja, a construção e reabilitação de infra-estruturas, por isso não investiu o necessário na equipa técnica, mas mesmo assim conseguiu qualificar a selecção para o torneio da COSAFA, onde disputaram uma final e automaticamente qualificaram-se para o CAN interno.

Apesar desses percalços, Chissano, que já venceu três títulos de campeão nacional e conquistou por várias vezes a Taça de Moçambique com o Costa do Sol e Têxtil de Púnguè, diz que foi nos Mambas onde sentiu-se mais feliz por ter representado o país, primeiro como Jogador e depois como selecionador nacional.

“Isso é deveras gratificante. Provavelmente seja o primeiro cidadão moçambicano que tenha conseguido qualificar a Selecção Nacional para uma fase final do continente, primeiro como jogador e depois como treinador”, vangloriou-se.

“Se tivesse continuado teríamos qualificado ao CAN”

 Questionado se caso tivesse continuado no comando técnico dos Mambas teria conseguido qualificar os Mambas para o CAN, Chissano foi categórico e respondeu “claramente que teríamos sido classificados ao CAN, tendo em conta o trabalho no escalão de formação de atletas que certamente saberiam representar o país da melhor maneira possível”.

“Em cinco anos teríamos traçado um projecto que consistiria no seguinte: nos primeiros dois anos – apuramento da selecção sénior para o CAN; em três anos – tentar qualificar uma selecção sub-17/20 para fase do final CAN, de modo a criar uma base para que ao chegar aos seniores tenham maior rotatividade internacional|”, afiançou Chissano.

Para sustentar a sua posição, Chissano deu exemplo da Namíbia que está sem um campeonato nacional, há cerca de dois ou três anos, mas acreditaram no trabalho do seu treinador Ricardo Manete, o qual conseguiu vencer uma taça COSAFA e qualificou a Namíbia para o CAN duma forma inédita.

“Essa qualificação é fruto de persistência e trabalho que lá existe a quatro ou cinco anos com mesmo selecionador. E não foi por causa de um e outro desaire que o Ricardo foi encostado”, sugeriu.

“Deveria honrar-se cláusula do contrato por objectivos”

Com relação a continuidade ou não de Abel Xavier nos Mambas, Chissano é peremptório: “devia honrar-se cláusula do contrato por objectivos, porque houve um acordo, entre o selecionador Nacional e a FMF que preconizava que caso não fossem alcançados o objectivo o contrato é posto a mesa e rescindido”.

“Agora Abel falhou os objectivos a que se propôs e cavou a sua própria sepultar ao assinar esse contrato, porque quando se disputa uma prova deve-se colocar a possibilidade de não apuramento para essa prova e ele, não cogitou essa hipótese e acabou falhando um CAN em que qualificaram duas equipas que tem um futebol inferior ao nosso, tanto a Guiné-Bissau como Namíbia têm um futebol inferior ao moçambicano” sugeriu.

Para Chissano, o que falhou para que Moçambique não se qualificar ao CAN 2019 foram as derrotas em solo pátrio, porque, no seu entender, perder ou empatar fora é um resultado considerável.

Como solução, aponta a formação dos jogadores das selecções sub17 e 23 de modo a ter uma selecção robusta e coesa para disputar um CAN daqui a quatro seis anos e quiçá vencer.

“O futebol nacional está a atravessar seu pior momento”

Na opinião de João Chissano o nosso futebol não está a atravessar o seu melhor momento devido a diversos factores, incluindo a sociedade moçambicana que perdeu alguns valores morais. Segundo ele, o futebol não se encontra isolado numa ilha.

Aponta dedo acusador à gestão desportiva que é lastimável, aos jogadores e os treinadores que também têm uma certa responsabilidade pelo momento que o futebol está atravessar, ou seja, sem valores que o norteiem a bom porto.

“Alguns organismos do futebol, incluindo os clubes e federações começam a trabalhar sem uma planificação forte, ambiciosa e robusta na qual o treinador contratado deve chegar para dar corpo a aquela planificação de modo a que quando ele sair o seu sucessor possa dar continuidade, o que não acontece nos dias correm”, sustentou.

Por essa razão, segundo ele, o que acontece nos Clubes e na selecção nacional é que cada seleccionador entra com sua metodologia de trabalho e faz questão de esquecer o trabalho feito pelo antecessor.

“Por isso reafirmo, a maior lacuna que temos é a gestão desportiva, porque o gestor desportivo deve planificar as actividades da instituição no seu todo, incluindo a contratação do treinador capaz de materializar a planificação feita pelo clube”, destacou.

“O futebol moçambicano não está atravessar uma boa fase. Por mais que os Mambas tivessem conseguido qualificar-se para o CAN, não teríamos bons resultados devido a falta duma estrutura interna coesa e capaz digladiar-se com os melhores do continente africano”, sustentou Chissano, defendendo ser necessária uma reforma estrutural no futebol nacional, começando pelos gestores desportivos até à base, de modo a que se possa ter mentes saudáveis isentas da corrupção.

“Meu desempenho nos últimos cinco anos foi decrescente”

Entretanto, o ex-treinador dos Mambas, João Chissano reconhece que o seu desempenho nos últimos cinco anos foi decrescente, apesar de ele ter abandonado o comando técnico de algumas equipas na perspectiva das coisas melhorem.

“Primeiro, quando sai dos Mambas fui treinar o Desportivo de Maputo que estava na última posição na tabela classificativa e pensávamos que fosse possível melhorar esta situação na segunda volta e não foi possível, apenas conseguimos subir um degrau. Depois fui ao ENH de Vilankulo, clube que obteve os melhores resultados desde a sua existência no Moçambola que foi a sua manutenção no campeonato”, refere.

“Recentemente fui treinar o Ferroviário da Beira, clube que fiz apenas uma volta deixei o clube na sexta posição e estávamos longe de alcançar os objetivos pelo qual fomos chamados assumir o comando técnico da equipa. Razão pela qual achamos certo rescindir o contrato e feliz ou infelizmente o clube terminou a época na nona posição, o que significa que eu, não era o principal culpado”, disse Chissano, destacando o facto de ser acarinhado pelos adeptos dos clubes por onde ele passou.

Mais  Destaques

Scroll to top
Skip to content