Alemães confiaram em Machel e não Mondlane

“Não foram atingidos os objectivos dos acordos entre Moçambique e RDA”

A Reportagem do Dossiers & Factos esteve, num passado recente, na Alemanha, na cida- de de Magdeburgo, onde parti- cipou de uma conferência in- ternacional alusiva aos 40 anos dos Acordos de Cooperação Bi- lateral RDA-Moçambique. Na ocasião, entrevistou o Prof. Dr. Mathias Tullner, cidadão ale- mão e historiador, que durante anos esteve em Moçambique, como cooperante e a trabalhar no âmbito das relações bilate- rais entre os dois povos, tendo contribuído com o seu saber no projecto de formação de pro- fessores, onde lhe foi colocado, pelo então ministro da Educa- ção, o desafio de ajudar na for- mação do pessoal pedagógico, no então Instituto Superior Pe- dagógico, extinta Universidade Pedagógica (UP).

Dossiers & Factos (D&F) – Como historiador de profissão, e de- pois de anos de trabalho em Moçambique, que experiências e histórias guarda deste país?

Mathias Tullner (MT) – Aprendi muito em Moçambique, sobretudo em relação à atitude de um intelectual, a atitude dos homens, sua relação, etc. Com o muro que existia na RDA, devo referir que eu não conheci na RDA a comunidade internacio- nal. Só com a minha ida a Mo- çambique é que se abriu uma nova vida, uma nova língua, um novo povo, muito amável, que dele aprendi outra forma de vida humana.

MT – Quando cheguei a Moçambique, o meu primeiro desafio foi de ler o famoso livro de Eduardo Mondlane com o tí- tulo “Lutar por Moçambique”, e depois recebi do professor Car- los Serra uma lição de História de Moçambique e, mais tarde, ele recomendou-me a entrar no Arquivo Histórico de Moçam- bique, para investigar o surgi- mento do primeiro movimento dos sindicatos, na antiga cidade de Lourenço Marques, e eu fiz esta investigação com sucesso e aprendi muita coisa ao longo desse processo. Por exemplo, sobre o colonialismo português, sobre a especialidade do com- plexo ferro-portuário da cidade e a história da cidade capital e do movimento, mesmo que ain- da não de resistência, mas que, mais tarde, viria a constituir-se numa resistência; falo, por exemplo, do caso dos irmãos Al- basini e outras personalidades e movimentos que lá surgiram, e entendi muita coisa interessante, tal como o significado do traba- lho forçado para a história deste país e da humanidade.

D&F – E a que conclusão chegou com esse trabalho investigativo?
MT – Pude, nesta investi- gação, imaginar o que significa construir a estrada que começa da baixa da cidade de Maputo lá para cima, na actual Avenida Julius Nyerere, pensando essencialmente que ela foi construída por homens sem qualquer for- mação, analfabetos, no âmbito do referido trabalho forçado, e eu entendi, ao mesmo tempo, que este foi o carácter fraco do colonialismo português. Veja, por exemplo, que eles, quando abriram a linha férrea Maputo-África do Sul, via Ressano Garcia, o sindicato branco dos portugueses, anualmente, or- ganizava uma excursão pelos caminhos-de-ferro.

É, para mim, estranho, en- tanto que alemão, que os portugueses tenham permitido que os negros participassem num acto em que entravam europeus e lá os negros podiam comer com garfo e faca. É lógico que, hoje, isto é visto como uma discrimi- nação clara, mas, naquele tempo, era considerado uma excepção, porém, há que perceber que o colonialismo português não era capaz de organizar os próprios colonos, entanto que brancos portugueses, para fazerem o ser- viço ao longo desta linha dos ca- minhos-de-ferro. Se isso aconte- cesse, seria um caso excepcional.

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