Apesar de ter sido legalizado:Aborto inseguro continua uma das principais causas da mortalidade materna

 

O aborto clandestino mata 13% das mulheres adolescentes e jovens, com idades que variam entre os 14 e 24 anos, em todo o país, segundo dados divulgados no mês de Maio, em Maputo. Um estudo feito pelo IPAS Moçambique, em parceria com o Centro Internacional para Saúde Reprodutiva (ICRH-M), aponta que o aborto clandestino tem sido uma das principais causas da mortalidade materna. A falta de conhecimento da Lei 32/2014 de 31 de Dezembro, que permite a realização de um aborto seguro e gratuito nas unidades sanitárias, constitui também uma das razões que concorrem para o aumento destes números.

Texto: Lídia Cossa

O estudo explica que existem muitas barreiras para aceder aos serviços de aborto seguro, a níveis individual, comunitário, do provedor, das unidades sanitárias e do Sistema de Saúde, que impedem as mulheres e raparigas de ter acesso seguro aos serviços de saúde sexual e reprodutiva.

Segundo o estudo, muitas mulheres jovens e raparigas não têm conhecimento da nova legislação e serviços. Elas, geralmente, conhecem muitos métodos para o aborto induzido, desde aqueles usados em unidades sanitárias, medicamentos tradicionais à base de plantas, pílulas abortivas (Misoprostol) e métodos “caseiros”, usando produtos domésticos comuns, como refrigerantes, sal e detergentes.

O estudo aponta que os casos têm acontecido com maior frequência em alguns distritos das províncias de Nampula e Zambézia, onde o acesso à informação tem sido deficitário, o que leva muitas mulheres a pensarem que a interrupção da gravidez no hospital envolve custos.

Todos os abortos são considerados perigosos, com o risco de morte ou infertilidade, embora se acredite que o aborto em unidades sanitárias seja menos arriscado, devido aos métodos utilizados, conhecimento dos profissionais de saúde e equipamentos, bem como materiais disponíveis, em caso de complicações.

Embora o aborto seja considerado pela maioria como um crime, não foram encontrados exemplos de casos de aborto reportados às autoridades, nem quaisquer sanções contra a rapariga a serem estabelecidas ao nível familiar.

Falta de acompanhamento leva à depressão sem precedentes

Segundo o psicólogo Elias Naftal, o que causa o aborto, muitas vezes, principalmente em raparigas e jovens, é o facto de se envolverem em actividades sexuais sem a devida preparação e com falta de maturidade, nalguns casos.

Tal como explicou o psicólogo, o que tem acontecido, muitas vezes, é a falta de conformidade entre a actividade sexual na qual os jovens se envolvem e a gestação que é o fruto desse mesmo acto.

“O que acontece depois é que há depressões e a depressão é uma situação que ninguém consegue superar facilmente, e por estar em depressão, o comportamento que se manifesta imediatamente não é premeditado. Não buscam outras soluções, naquele momento, e acabam pautando por fazer o aborto, que é a forma mais rápida que encontram naquele momento”, disse.

Naftal acredita que se houvesse mais intervenções nas comunidades, com especialistas em psicologia ou mesmo especialistas em saúde reprodutiva, a sociedade seria chamada à consciência para apoiar os adolescentes, que, muitas vezes, fazem os abortos por falta de acompanhamento.

O nosso entrevistado explicou ainda que, a partir do momento em que a pessoa não está preparada para conceber, automaticamente, já fica com um certo tipo de distúrbio mental, por isso não pensa em outra coisa senão em procurar alguma forma de tirar o bebé.

 

“A sociedade não está a fazer devidamente o seu papel”

O psicólogo olha para o papel da sociedade como sendo crucial para a superação do trauma que é causado pelo aborto. Olhando para situações em que a pessoa ainda não está preparada para conceber, por exemplo, Naftal acredita que é nesse momento em a sociedade devia agir de forma mais aberta.

“O que verificamos é que a sociedade não faz o seu papel antes da situação de risco acontecer, deixam as coisas acontecerem para depois trazer seus comentários. Acredito que a sociedade devia deixar os tabus e procurar educar os jovens sobre a matéria sexual e reprodutiva, para que estejam preparados e cientes do que estarão a fazer durante o acto”, sustentou.

Sobre o facto de adolescentes serem mães, o psicólogo disse que o contexto social em que estão inseridas contribui bastante para essas situações.

“As gravidezes prematuras acontecem mais em sociedades carentes, que, por falta de educação, muitas vezes na matéria de sexualidade, acabam se envolvendo nisso muito cedo, à procura de algo para o auto-sustento. E a falta de informação também contribui. Ainda há famílias, hoje em dia, que não têm acesso à televisão, mas se existisse, por exemplo, uma forma de levar a informação a todos os níveis sociais, se calhar o fenómeno podia diminuir”, concluiu.

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