Assim, nem na rua(nda), Mambas!

 

Uma vez mais, Moçambique complica contas fáceis. O combinado nacional sucumbiu perante a congénere ruandesa, num jogo que, se tivesse decorrido em princípios de 2020, teria sido um aliado importante da Organização Mundial da Saúde (OMS) nos seus esforços visando dissuadir o público de frequentar os campos de futebol. Agora dependemos de terceiros. Como em tudo!

Texto: Amad Canda

“Se formos muito eficazes nas transições, podemos marcar”, esta declaração de Luís Gonçalves, proferida ontem na antevisão ao Ruanda vs Moçambique desta quarta-feira, preocupou-me bastante, porquanto sugeria uma selecção de Moçambique a jogar em contenção, estratégia que jamais imaginaria ver os Mambas adoptarem perante uma selecção do calibre de Ruanda. Por conta disso, revi em baixa as minhas expectativas para o jogo.

O 11 apresentado pelo seleccionador nacional esteve alinhado ao que dissera na antevisão. Sem poder contar com Mexer, Zainadine Jr e Reinildo, o luso-moçambicano ainda conseguiu piorar o cenário, abdicando do capitão Dominguês e apresentando uma dupla de meio campo – Kambala e Kito – conservadora, emitindo inequívocos sinais de que Moçambique não tinha viajado para Kigali para praticar um futebol atraente, mas para fazer serviços mínimos, na lógica “simeónica” de estacionar o autocarro, marcar numa fugaz saída e voltar a estacionar.

Só que até nisso o plano de Luís Gonçalves falhou. O timoneiro dos Mambas não foi capaz de montar uma equipa “coerente, constante e compacta”, palavras que o próprio usara para descrever aquilo que a seleção devia ter sido hoje. Em vez disso, o conjunto nacional apresentou-se caótico, numa anarquia táctica que nem no futebol de rua(nda) era capaz de proporcionar resultados.

Com a conhecida crise de autocarros em Moçambique, Luís Gonçalves acabou por não levar nenhum às terras de Paul Kagamé, e até tentou fazer uma pressão mais subida à saída a três dos ruandeses. Mas a notória descoordenação entre sectores deitou tudo por água abaixo. Quando os dois homens da frente – Faizal Bangal e Luís Miquissone – caiam em cima dos defensores ruandeses, a falta de acompanhamento da linha média resultava numa cratera de dar inveja até à mais desafortunada rua da “Matola que queremos” de Calisto Cossa.

É por aí que os ruandeses se infiltravam no nosso reduto, circulavam para atrair a segunda linha e chegavam ao último terço, obrigando os moçambicanos a se agarrarem permanentemente ao terço. A descoordenação e má definição dos timings de pressão juntava-se a evidente falta de ritmo, que encontra explicação no facto de não haver competições domésticas. Não por acaso, Moçambique foi incapaz de “domesticar” as unidades mais adiantadas do adversário, que só não fizeram mais estragos por manifesta falta de qualidade.

No plano ofensivo, a exibição dos pupilos de Luís Gonçalves foi ainda mais deprimente e os problemas começam lá de trás. Com uma turbulenta relação com a bola, Jeitoso não dá jeito nenhum a uma saída limpa. Neste capítulo, ficou ainda mais evidente a ausência de Mexer (e até de Reinildo e Zainadine Jr, em comparação com Bruno Langa e Chico “Van Bommel”, respectivamente).

A insegurança para sair com bola controlada desde a primeira zona de construção levou a que se recorresse, invariavelmente, a pontapés para frente, com a bola sempre a ser ganha pelos ruandeses. Nas poucas vezes que o nosso meio campo ganhava duelos, não sabia como dar seguimento às jogadas, o que tem muito que ver com a circunstância de Luís Gonçalves ter castrado a criatividade da zona intermediária, ao colocar Dominguês no banco. De resto, foi com o Puto Maravilha em campo, já com Moçambique em desvantagem, que os Mambas conseguiram desenhar jogadas com princípio, meio e fim, chegando a assediar a baliza do Ruanda.

Antes disso, assistiu-se a um recital de como não jogar futebol. Maus posicionamentos, más recepções, maus passes, enfim, más decisões. É certo que Luís Gonçalves pode queixar-se da falta de ritmo e das ausências de jogadores importantíssimos, mas terá de reflectir profundamente nas suas escolhas.

As principais consequências do jogo de hoje são a queda para o terceiro posto e uma exibição que, praticamente, dá cabo do verde da esperança de garantir a qualificação para o CAN. E vem aí o Cabo Verde!

 

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