“Cabo Delgado é um palco de informação e contra-informação” – defende Policarpo Mapengo

  • ‘‘A maior oposição que este país tem é a Imprensa e a sociedade civil’’
  •  ‘‘Nosso jornalismo é posicional e não é exactamente um jornalismo de causa’’

 

 

Reservado e um tanto inimigo dos holofotes, Policarpo Mapengo, jornalista, roteirista e historiador cultural, abriu-nos as portas de sua casa e aceitou o desafio de em uma hora e trinta minutos analisar o estágio actual do jornalismo moçambicano, numa altura em que passam 42 anos desde a criação da primeira organização de jornalistas do país. Com quase 30 anos de experiência, Mapengo não tem dúvidas de que a classe está a atravessar uma das fases mais complicadas, pois, no seu entender, há vezes em que o jornalismo chega a ser posicional e não exactamente de causa, como devia ser. Nas entrelinhas, comenta acerca dos ataques armados em Cabo Delgado, defendendo que aquele ponto do país se transformou num palco de informação e contra-informação, razão pela qual não se sabe ao certo o que está a acontecer. Acompanhe a seguir os excertos mais importantes da entrevista.

Texto: Hélio de Carlos

Dossiers & Factos (D&F) – Celebrou-se, há poucas semanas, o Dia do Jornalista Moçambicano. Como profissional desta área, com mais de 20 anos de experiência, pode falar-nos do estágio actual do jornalismo moçambicano?

Policarpo Mapengo (PM) – O jornalismo moçambicano atravessa uma fase complicada, encontra-se actualmente num período de desafios, uma situação que não é só para o jornalismo, mas para todos os sectores sociais. É um período de sobrevivência.

Em todas as épocas, sempre se exigiu muito do jornalismo, uma vez que este sempre seguiu uma tendência. Houve um tempo em que o jornalismo era revolucionário, tinha muito a tendência de acompanhar a revolução, mas também de informar, o que era um conflito muito acérrimo entre aquilo que era a política e o estágio daquilo que o país vivia e aquilo que se precisava no jornalismo formal.

Dentro dessa paixão revolucionária que todo o país vivia naquela altura, também tinha o conflito do direito de informar, que era uma fase crítica do jornalismo e depois seguiu-se uma fase muito mais interessante, que é a fase da abertura multipartidária política e uma abertura para que surjam muito mais jornais que não fossem simplesmente os que defendiam aquela linguagem multipartidária e estatal, mas também surge uma fase que era mais de verdade, mas a ideia de verdade colocava também em seguinte confronto: o que é a verdade, para quem?

Quando estamos a falar do surgimento dos partidos políticos e depois tu começas a falar aquilo que supostamente é a sua verdade, pode ser encarada por outra parte como um posicionamento, então discutimos a questão da imparcialidade, porque estamos num país que quando estás contra as minhas ideias, é porque estás a defender o outro lado, e não o que está certo, então, a verdade fica um pouco subjectiva.

D&F – Está a querer dizer que há pouca objectividade jornalística actualmente, por conta das circunstâncias?

PC – O jornalismo tinha o desafio de posicionar-se em busca da verdade e daquilo que é o certo, mas sem se colocar como defensor de um certo lado. Agora é uma fase muito complicada, porque há vezes em que o jornalismo chega a ser posicional e não exactamente de causa, como podíamos ver  noutros tempos.

O que se vê agora é um jornalismo que se confunde muito com as posições de “nós contra eles”. É um período muito confuso para o jornalismo, assim como para o próprio país, porque não percebemos para onde estamos a ir nem o que está a acontecer, pois, apesar de aparentemente muitos estarem a falar, está a ocultar-se muita coisa. É o velho truque de se esconder algo num espaço visível.

Esse é o grande desafio do jornalismo, que é de mostrar o que, de facto, está a acontecer, mas sem mostrar que há uma ideia da oposição, porque, às vezes, o jornalismo vai se confundido com isso.

 O papel do jornalismo é descobrir o que está a ser escondido no meio de tantos discursos e do que aparentemente está aberto. Há muitas coisas que nos colocam esse desafio, como é a ideia dos insurgentes em Cabo Delgado, a situação económica e a saúde.

Clica aqui e baixe o PDF do Dossiers & Factos Digital e leia a entrevista na íntegra

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