Chicotadas psicológicas: a face mais visível de uma gestão rudimentar

Nos meandros do futebol, tornou-se popular a expressão “os treinadores vivem com as malas feitas”, em referência à facilidade com que, de um momento para o outro, podem ser despedidos dos clubes. Esta é uma realidade transversal à todos os quadrantes, e é normal. Tal como um Presidente da República substitui ministros para “conferir uma nova dinámica”, também os presidentes dos clubes procedem da mesma forma com vista a melhorar os resultados desportivos.

Cumpre, porém, ressalvar que, apesar de normal, a demissão de um treinador é uma decisão excepcional e extrema, devendo resultar da percepção de que reside nesta figura a razão do insucesso desportivo. Impunha-se que, antes de se avançar para a rescisão contratual, os dirigentes analisassem profundamente todas as variáveis passíveis de condicionar a performance de uma equipa.

Temos motivos para crer que, em Moçambique, os clubes não fazem esse importante diagnóstico, o que é de uma gravidade atroz, porque sintomático do amadorismo e da má gestão. É por conta disso que uma situação de excepcionalidade tonou-se corriqueira na gestão dos clubes. De resto, a época em curso é paradigmática nesse aspecto.

Oito dos 14 clubes do Moçambola já não estão com os treinadores com que iniciaram a temporada. Exceptuando Horácio Gonçalves e Artur Comboio – saíram voluntariamente para abraçar outros projectos –  e Rogério Mariani – perdeu a vida – todos foram vítimas das chicotadas psicológicas, por sinal baseadas no mesmo fundamento: maus resultados.

O caso mais fresco é o de Antero Cambaco, afastado do comando técnico do Ferroviário de Nacala. Cambaco engrossa uma lista já grande composta por Aly Hassane, Chaquil Bemat, Nacir Armando e Amide Tarmamade, que estavam, respectivamente, ao serviço da Liga Desportiva de Maputo, Ferroviário de Nampula, União Desportiva de Songo e Textáfrica de Chimoio.

Quase todas estas demissões atestam a incompetência dos gestores dos respectivos clubes, associada ao apetite voraz por resultados imediatos, no qual assenta a ausência de projectos sustentáveis. Este é o problema fundamental dos nossos clubes e do nosso desporto, no geral.

Os projectos desportivos em Moçambique resumem-se à simples actos burocráticos, como a contratação de atletas e treinadores, tudo feito com uma aleatoriedade assustadora. Ignoram os clubes que, em condições normais, a definição do perfil do treinador e dos atletas resulta de uma clara definição de um modelo de jogo. Para um modelo que privilegie saídas em transições, será sempre mais útil um José Mourinho do que um Mauricío Sarri, para quem a posse de bola é um princípio sacrossanto. De igual modo, jogadores como Ngolo Kante são mais consentâneos com este modelo do que propriamente os Gundongans desta vida.

Esta é uma premissa a qual os dirigentes desportivos nunca dão a devida atenção, por isso assiste-se, época após época, à descompassada “dança dos treinadores”, injustamente responsabilizados pelo mau planeamento desportivo das direcções dos clubes. Colocando a carroça à frente dos bois, e sem scounting nenhum, muitos dirigentes chamam para si a responsabilidade de contratar uma “carrada” de jogadores, e só depois disso procuram por um treinador. Chegado ao terreno, o primeiro problema com que o técnico se confronta é a incompatibilidade entre a sua proposta de jogo e os intérpretes que lhe são colocados à disposição. O resultado disto é óbvio: más exibições e maus resultados e, lá está, demissão do timoneiro. A seguir, contrata-se outro treinador, a quem se dá dois jogos para apresentar resultados positivos. Não conseguindo, é igualmente afastado, abrindo espaço para mais um, mais um e mais um.

Incapazes de fazer um exercício introspectivo, as direcções dos clubes que militam na fina flor do futebol nacional julgam-se imaculados, e, por isso mesmo, nunca equacionam a hipótese de serem, também eles, culpados pelo mau desempenho no relvado. Quando as coisas não correm à contento, há que apresentar um cordeiro às exigentes massas associativas, e o treinador é o elo mais fraco.

O futebol moçambicano é um circo onde os treinadores são usados como máscaras para esconder debilidades absolutamente inacreditáveis. Que sentido faz exigir resultados à um profissional que sequer tem bolas suficientes para treinos? Que moral tem um dirigente para, em menos de cinco jornadas, demitir um treinador a quem não dá mínimas condições?

Foi público que o Textáfrica enfrentava problemas de tesouraria, de tal sorte que chegou a ficar cinco meses sem conseguir parar ordenados aos seus colaboradores, incluído atletas e equipa técnica. Ainda assim, não se coibiu de, à terceira jornada, “mandar passear” Amide Tarmamade, “por maus resultados”. Haja coragem!

Manchester City, Ajax ou Atalanta são demonstrações eloquentes de que o sucesso desportivo não cai dos céus e deviam servir de inspiração para os nossos dirigentes. Internamente, fica na retina o fantástico trabalho desenvolvido pela Associação Black Bulls, um clube que definiu claramente a sua matriz de jogo, através da qual traçou o fio condutor que o orienta há alguns anos, já desde os “quarteirões”.

Hoje lidera o campeonato nacional em pleno ano de estreia, mas o maior selo de qualidade dos “touros” talvez seja a quantidade de jogadores que “exporta” e que vão assumindo um protagonismo cada vez maior ao nível das selecções nacionais. É olhar e aprender. Amad Canda

 

 

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