CNAF afronta decreto presidencial e descarta testes da Covid-19

Em clara violação do protocolo sanitário, que pode ser entendida como uma afronta ao decreto presidencial n.º 50/2021, que revê as medidas para a contenção da propagação da pandemia da Covid-19, a Comissão Nacional de Árbitros de Futebol (CNAF) teima em ignorar a realização dos testes da Covid-19. Mas esta é só a ponta de iceberg de uma instituição envolta em polémicas, que incluem até “compra” de nomeações por parte dos árbitros.

Está estabelecido que, antes dos habituais testes de aptidão física, os árbitros de futebol devem ser submetidos ao despiste da Covid-19. Ainda assim, ontem, 26 de Julho, foram realizados testes de aptidão física na cidade da Beira, província de Sofala, envolvendo juízes que não passaram pelo teste da Covid-19, não se sabendo, portanto, se estão ou não infectados. Parte desses juízes apitou jogos da décima segunda jornada da maior prova do futebol nacional – o Moçambola.

Este episódio acontece uma semana depois de a Secretaria de Estado do Desporto, através do inspector-geral do desporto, Sidónio Chavisse, ter abortado acto similar no Estádio Nacional do Zimpeto, na cidade de Maputo, abrangendo os árbitros da zona sul do país.

Na capital provincial de Sofala, a CNAF terá, aparentemente, conseguido “fintar” a Secretaria de Estado do Desporto, violando, deste modo, o protocolo sanitário. Questionado sobre este assunto, o presidente da agremiação, José Norberto dos Santos, disse que não era a pessoa indicada para falar, remetendo-nos à Comissão Provincial de Árbitros de Futebol de Sofala (COPAF).

“Não sei dizer, porque não estou na Beira. É melhor perguntar ao presidente da Associação Provincial de Sofala, ele é que estava a coordernar lá”, disse José Norberto, que, entretanto, assegurou que “todas as associações provinciais têm teste da Covid-19”.

Dossiers & Factos sabe, contudo, que a CNAF enviou um instrutor físico à cidade da Beira para orientar a actividade e, ao que apuramos, o próprio enviado da CNAF não tinha realizado o despiste da Covid-19.

Já em relação ao teste cooper abortado na capital do país, o timoneiro da CNAF alegou que a instituição não tinha conhecimento de que os testes de aptidão física estavam condicionados à realização do teste da Covid-19. “Não tínhamos informação. O decreto entrou em vigor à meia-noite de sábado, e nós tínhamos marcado os testes para sábado”, justificou.

Sabe-se, no entanto, que já os anteriores decretos tinham deixado claro que a retoma das competições é condicionada à realização de “testes regulares” da Covid-19.

 

Só os árbitros de Maputo realizam teste da Covid-19

Informações em nossa posse indicam que já se tornou habitual a não realização de testes da Covid-19 no país, sendo que apenas os juízes da capital do país são submetidos à este importante mecanismo de prevenção da pandemia. Nas restantes províncias, os “homens do apito” têm “luz verde” para apitar jogos sem passar pelo despiste da Covid-19, colocando em causa a saúde dos restantes intervenientes do Moçambola, nomeadamente atletas, dirigentes e os próprios árbitros.

Mas por que razão isso acontece? Fontes fidedignas garantem que é tudo parte de uma estratégia que visa afastar os árbitros da cidade e província de Maputo, que são, aparentemente, os mais dotados sob ponto de vista técnico. De acordo com nossas fontes, os árbitros desta parcela do país são “inconvenientes” para a actual direcção da CNAF, por, alegadamente, não serem “manipuláveis”, mas a isso voltaremos mais adiante.

As mesmas fontes fazem notar que até os testes de aptidão física são usados como “meio de exclusão” na província e cidade de Maputo. “Em Maputo eles “apertam” com o objectivo de te fazer reprovar. Nas zonas centro e norte os testes são muito leves”, revelou uma figura próxima à CNAF.

Árbitros pagam para realizar testes

Constam-nos igualmente que os “homens do apito” pagam pela realização dos testes de aptidão física, facto que, de acordo com nossas fontes, viola os estatutos da CNAF. Garantem fontes do Dossiers & Factos que cada árbitro desembolsa uma taxa de 1600 meticais, valor que é enviado, via mpesa, para a conta do secretário da Comissão Técnica da CNAF, Célio Pereira.

Instado a reagir às acusações que lhe são imputadas, Pereira, que está na CNAF há mais de 15 anos, não quis comentar, alegando que “telefonicamente, não presto esse tipo de declarações”. Perante a nossa insistência, reiterou que era preciso que o contactássemos “pessoalmente”, porque “é assim que se faz reportagem”.

Comissão Técnica acusada de receber “encomendas”

A dado passo, referimos, neste artigo, que os árbitros de Maputo são tidos como “inconvenientes” pela CNAF. Quem não tem esse rótulo – de inconveniente – são os juízes das zonas centro e norte do país, que, de acordo com as nossas fontes, entregam “oferendas” aos membros da Comissão Técnica para garantir nomeação para dirigir partidas de futebol.

Dossiers & Factos sabe que, na manhã deste domingo, 25 de Julho, o próprio presidente da Comissão deslocou-se ao bairro de Zimpeto, onde estavam hospedados os árbitros Dino Andrade e Albino Muchanga, que vieram a Maputo para dirigir o confronto entre o Incomáti de Xinavane e Ferroviário de Nacala, que terminou empatado (1-1).

Alfredo Sitoe alegou que o encontro com os referidos árbitros visava transmitir “dicas” para que “não estragassem o jogo”. Todavia, nossas fontes asseguram que o dirigente foi buscar uma “encomenda” supostamente trazida da província de Teto pelo árbitro Dino Andrade, que, lembre-se, não foi submetido ao despiste da Covid-19. De resto, entre a equipa que dirigiu o duelo entre os “açucareiros” e os “locomotivas de Nacala”, apenas Domingos Machava, da província de Maputo, foi testado.

Dossiers & Factos contactou o presidente da Comissão Técnica da CNAF, que confirmou o encontro com os Dino Andrade e Albino Muchanga, mas desdramatizou o facto. “Sou o presidente da Comissão Técnica, falo com todos os árbitros”, disse.

Direcção da CNAF contestada

A Comissão Nacional de Árbitros de Futebol está em polvorosa. Há indicação de que os “homens do apito” estão insatisfeitos com a direcção, que dizem ser “incompetente”. O presidente José Norberto, que nunca foi árbitro, é acusado de não entender as inquietações dos juízes e de deixar que os seus assessores – Célio Pereira e Alfredo Sitoe – criem desmandos no seio da agremiação.

Com experiências de dirigismo no Desportivo de Maputo, Matchedje e na Associação de Futebol da Cidade de Maputo, José Norberto foi nomeado presidente da CNAF em Janeiro de 2020, tendo substituído Acácio Victor.

Dossiers & Factos sabe que os árbitros já transmitiram suas inquietações à Federação Moçambicana de Futebol, mas ao que tudo indica, ainda não tiveram resposta. Amad Canda

Mais  Destaques

error: Conteudo protegido!!
Scroll to top
Skip to content