COMBATE A INSURGÊNCIA EM CABO DELGADO: Factura do apoio externo será bastante elevada

 

A situação militar em vários distritos da província de Cabo Delgado tende a crescer a cada dia que nasce. Dados existentes estimam que, desde que a insurgência eclodiu naquele ponto do país, já foram mortas pouco mais de 300 pessoas, e centenas de residências incendiadas. Há também relatos de ataques e assaltos a viaturas, e este mesmo cenário acontece em instituições públicas e privadas, unidades militares, entre outros alvos dos insurgentes. Devido à gravidade da situação, e com vários interesses económicos a despontar naquele ponto do país, dada a existência de hidrocarbonetos, vários países já manifestaram interesse e prontidão para ajudar Moçambique na identificação e combate aos autores desta guerra, mas o Estado moçambicano ainda não cedeu a essas propostas. Entretanto, analistas ouvidos pelo Dossiers & Factos divergem quanto à aceitação ou não desses supostos apoios por parte do executivo moçambicano.

Texto: Lídia Cossa

Devido à cada vez alta escalada de violência, aliada a outros factores, alguns países, como, por exemplo, os Estados Unidos da América, a Rússia e outros, incluindo a Comunidade dos Países da Língua Portuguesa (CPLP), já mostraram vontade de ajudar Moçambique na identificação e eliminação dos insurgentes, mas o Estado moçambicano ainda não mostrou abertura para esse apoio.

PR pede colaboração dos insurgentes desconhecidos

Apesar da preocupação que é demonstrada pelo Estado e Governo moçambicano, o nível e a forma como os ataques ocorrem em Cabo Delgado fazem com que algumas vozes questionem o papel e estratégia das nossas Forças de Defesa e Segurança, numa altura em que o PR qualifica os insurgentes como sendo cobardes.

 Para o PR, esta “é uma guerra movida por pessoas de fora e que têm dinheiro. Não sabemos onde buscam esse dinheiro para matar os moçambicanos. Se calhar, é dinheiro dos próprios moçambicanos que volta a matá-los”, disse Nyusi, há dias, num comício popular em Cabo Delgado.

Na mesma ocasião, dirigindo-se aos “cobardes”, disse: “a verdade é: esses que estão a matar pessoas aqui em Cabo Delgado, se derem a cara e disserem o que querem, nós vamos ouvir. Se é por causa da riqueza que há aqui, há muitas maneiras de a distribuir, e uma delas é trabalhando”, sublinhou.

Apesar de aparentemente desesperado, a ponto de pedir que os insurgentes colaborem, o Governo de Nyusi ainda não abriu espaço para ajudas internacionais, e uma das justificações encontradas pelo Chefe do Estado foi de que há “indefinição” da ajuda internacional para o combate aos insurgentes.

O PR critica a forma como os aludidos apoios são anunciados, e considera haver falta de informação clara sobre as modalidades de apoio que alguns países afirmam pretenderem dar para o combate à insurgência armada na província de Cabo Delgado.

 “Caso o Estado aceite apoio internacional, a factura será alta”

 

 

Calton Cadeado, docente da disciplina de Estudos de Paz, Conflitos e Segurança Internacional, diz que a situação na província de Cabo Delgado passou do controlo do Estado e do Governo moçambicano, porque, tal como se nota, a capacidade das FDS aparentemente não é suficiente para fazer face às circunstâncias.

O académico entende que o facto de o Governo não mostrar abertura para ajudas internacionais pode estar aliado à questão de não querer parecer incompetente ao ponto de não conseguir resolver problemas internos.

Apesar de concordar que as FDS ainda não têm capacidade de resolver o assunto de Cabo Delgado, Cadeado não aceita que sejam forças internacionais que irão resolver um problema interno. Por um lado, porque é problema de Moçambique e tem que ser Moçambique a resolver e, por outro, porque nenhum país se vai abrir para ajudar sem querer nada em troca, e a factura pode ser alta.

Cadeado defende que “o Governo tem de investir para acabar com os ataques em Cabo Delgado, ser capaz de aparecer hoje e, por exemplo, dizer: ‘pago um milhão de meticais a quem me identificar o esconderijo dos insurgentes. É assim que se resolve, e não é indo buscar americanos para estarem aqui. Eu, em particular, não quero, aqui em Moçambique, uma bota de qualquer que seja o soldado de forças ocidentais, porque a factura vai ser alta, eles podem nos dar capacidades, porque têm armas, munições, aviões, mesmo assim, vamos ter que pagar uma factura grande, com nossos recursos. Ele vai-te dar cinco helicópteros, depois vai dizer: quero 20% das acções da gestão de recursos ou minas por 50 anos, essa factura é grande”, advertiu.

Segundo Cadeado, o Estado e o Governo moçambicano também podem estar a temer que os outros países lhes vejam como incompetentes, por não conseguir resolver um assunto interno com os serviços de inteligência internos.

“Não quero nenhuma bota do americano nem da OTAN aqui!”

“Se trouxer serviços externos de inteligência para dentro de Moçambique, o que vai acontecer é que os outros passarão a saber muito mais de nós do que nós próprios. Provavelmente, as nossas autoridades querem evitar isso de dar um campo ou um paraíso aos serviços secretos de outros países, para actuar a seu bel-prazer e até controlar os processos de combate a estes malfeitores’.”

A fonte é da opinião que não é obrigatório que a colaboração dos países internacionais seja especificamente em mandar forças militares para Moçambique, porque ninguém gostaria de ver outras forças a trabalhar no seu país. “Por exemplo, quando o Estado Islâmico reivindicou a autoria dos ataques em Cabo Delgado, não ouvimos os serviços secretos americanos a confirmar ou a negar que aqueles são do Estado Islâmico, mas esta seria uma colaboração dos serviços secretos americanos para com o Estado moçambicano, porque eles têm capacidades, tem meios, têm as tecnologias mais avançadas do mundo. Essa seria uma colaboração da inteligência dos americanos, para dizer ao Estado moçambicano, por exemplo, que, de facto, aquela reclamação de autoria que nós vimos aí na Internet é ou não do Estado Islâmico, mas o que todos estão a falar é de uma colaboração em termos de forças militares aqui em Moçambique. E quem é que gostaria de ver forças americanas a actuar aqui em Moçambique?”, questionou.

 “Concordo que o Estado e o Governo já estão impacientes, porque essa situação está a alastrar-se, tudo isso junto não deixa nenhum Estado tranquilo. Eu defendo, pessoalmente, que nós temos que ter essa cooperação, mas a primazia tem de estar no Estado e Governo moçambicano. Da cooperação, nós precisamos de capacidades ofensivas e defensivas, meios e logística. É disso que precisamos.”

 Cadeado sublinha ainda que, “como Estado, precisamos perseguir permanentemente os insurgentes, e, ao que nota, não estamos a fazer isso, porque não temos capacidades ofensivas, e os insurgentes não estão a sofrer perseguições constantes das nossas FDS, e isso faz com que tenham tempo suficiente para planificar e atacar”, sublinhou.

Cadeado lamenta o facto de antes de robustecer as FDS, o Estado ter se apressado em lançar concursos para as multinacionais investirem naquela província. “O Governo não devia ter aberto concursos para gás e petróleo, sem antes robustecer as nossas FDS, por isso eu sou contra trazer militares da América para aqui, militares da Grã-Bretanha para colocar aqui, sou contra trazer militares da OTAN, sobretudo porque esses companheiros, quando intervêm, o fazem para ocupar, tal qual os russos o fizeram quando intervieram no Afeganistão, e este não é o tempo de termos alguma ocupação aqui, e até prefiro trabalhar com empresas privadas de segurança e não desses Estados”, sentenciou.  

“É altura de testar a real funcionalidade do SISE”

 

 

Fátima Mimbire, jornalista e activista social, entende que sempre houve por parte do nosso Estado dificuldades em lidar com o assunto dos ataques em Cabo Delgado, tendo em conta com o tempo que estes já duram, e a forma como trata os assuntos. Mimbire considera que se notou uma dificuldade em combater esses insurgentes, quando, pela primeira vez, atacaram uma esquadra policial, e foi aí onde, segundo Mimbire, a ficha caiu.

A fonte diz que é preocupante que já tenham passado cerca de três anos, e o Governo não tenha ainda aparecido em público e, na base das investigações feitas pelas instituições do Estado ou por empresas contratadas pelo mesmo, informar como está a situação em Cabo Delgado e o que está a ser feito para solucionar.

“Eu penso que o Estado, responsável que é, deve, baseando-se numa investigação, informar aos cidadãos como está a situação de Cabo Delgado e o que se está a fazer. Mas compreendo que o nosso Governo tem uma lógica de funcionar não alarmista, no sentido de: “vamos fingir que não há nada, não falar nada para ninguém, não dar detalhes, para evitar alarmar as pessoas”. Eu acho que, se calhar, em certos momentos, é necessário alarmar as pessoas, para estarem em alerta e assim proteger-se o próprio Estado, porque, neste momento, há muita desinformação”, explicou.

Mimbire questionou o fundamento do discurso do Presidente da República aquando da sua estadia em Cabo Delgado, onde traz dados sem citar em que estudo ou investigação se terá baseado.

“PR precisa reavaliar o seu discurso”

“A mim causa espanto, enquanto cidadã que paga impostos, que o Governo não tenha, até três anos depois, um relatório que nos diga qual é o ponto de situação, o que é que o Serviço de Informação e Segurança do Estado (SISE) está a fazer relativamente a este caso. Há atentados quase todos os dias, mesmo que não sejam reportados, mas isso não anula a existência da situação de Cabo Delgado, muito menos a existência de mortes naquela província.”

“O Governo pode até decretar que os jornalistas estão proibidos de ir a Cabo Delgado, pode fazer tudo o que quiser para impedir que este assunto seja de domínio público, mas a verdade é que a situação lá não vai mudar só porque não está a ser reportada, enquanto o Estado não intervier adequadamente”, explicou.

Mimbire sublinha que “não podemos ter um SISE que está preocupado em controlar os celulares das pessoas, está aqui um caso para vermos se, de facto, temos um serviço de inteligência. Este é um caso que testa os nossos serviços de inteligência, que não foram criados para facilitar as roubalheiras das dívidas ocultas, mas sim para resolver e ajudar a esclarecer situações como a de Cabo Delgado.”

 “Para mim, o discurso do PR não tem fundamento, e a dado passo parece ser contraditório, quando diz: “se derem a cara e disserem o que querem, vamos ouvir”. Ele está a chamar a quem para dar a cara? E ainda diz: “se os jovens querem viver bem em Moçambique que venham dizer”. Ele está a reconhecer que o assunto dos insurgentes em Cabo Delgado pode ter ligação com a falta de emprego, com as más condições em que a juventude, em particular, e o povo moçambicano, em geral, vivem neste país. Eu penso que o PR tem que colocar a mão na consciência e reanalisar o seu discurso”, sustentou.

“SADC pode ajudar a encontrar solução do problema”

 Mimbire é da opinião que o Estado moçambicano deve investigar ou mandar o SISE trabalhar no assunto Cabo Delgado e, se se justificar, pedir apoio dos seus pares da SADC, para ajudarem no que for necessário.

“Primeiro, temos a África do Sul, que pode ser prejudicada, caso esses ataques se alastrem, porque não é difícil entrar naquele país estando em Moçambique. Por outro lado, temos o Zimbabwe, que também vai ter interesse em ajudar, pelo facto de ser um país que tem diamantes e que são recursos também apetecíveis; temos o Malawi ali que pode ser prejudicado, e a Zâmbia ali por perto.”

“Portanto, temos toda uma SADC que fica prejudicada se a situação aqui em Moçambique piorar. Julgo que o nosso país não tem de inventar a roda, essa questão de cooperação e colaboração entre Estados é uma prática internacional, e não estamos a dizer para ir aos Estados Unidos pedir ajuda, é para dialogar com seus pares aqui ao nível da SADC, e desenharem uma estratégia conjunta, se não conseguirem, têm a União Africana inteira”, defendeu.

“Não há amigos em relações internacionais, sempre terá que pagar”

 

 

Hilário Chacate, especialista em Relações Internacionais, explicou que caso o país abra espaço para ajudas internacionais, terá que pagar alguma coisa, porque nenhum país é capaz de sacrificar seus soldados para salvar moçambicanos e não ter nada em troca.

“Nas relações internacionais, existe um paradigma chamado realismo, que advoga que os Estados são interesseiros, não há amigos nas relações internacionais, os Estados agem em função dos interesses, ou seja, nenhum Estado está disposto a sacrificar os seus filhos mais amados em nome dos moçambicanos. Significa que, se um outro Estado permitir que os seus filhos venham morrer em Moçambique, é porque existe alguma coisa que vai ganhar em troca.”

“É preciso compreender a complexidade toda, para perceber que não é tarefa fácil, se eles entrarem cá, é porque vão ganhar alguma coisa. E a questão que surge é: será que o Estado moçambicano está disposto a pagar essa contrapartida? O Estado deve abrir-se para os Estados que queiram ajudar, mas com uma contrapartida viável para o país ”, explicou.

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