Coronavírus coloca a nu problema da baixa produção nacional

  • Preços de alguns produtos de primeira necessidade triplicaram
  •         “Moçambique deve aprender a produzir e ter seu próprio mercado”– economista
  • “Somos dependentes de quase tudo” – Mukhero

O surto do novo coronavírus está a afectar a economia do país e do mundo. As importações no país reduziram, com o encerramento de algumas fronteiras, mesmo antes de se registar o primeiro caso. Com alguns casos já confirmados no país, os mercados nacionais já estão a ressentir-se da falta de alguns produtos de primeira necessidade, como o alho, a cebola, a batata e o arroz. A pouca batata e cebola que ainda chegam aos mercados chegam tardiamente, porque os camiões que vão à vizinha África do Sul comprar passam por muitos procedimentos, resultando no atraso. E por causa dessa escassez e chegada tardia da mercadoria, os preços dispararam, afectando assim o bolso do pacato cidadão.

Texto: Lídia Cossa

Até ao fecho da presente edição, na passada sexta-feira, o país não tinha ainda registado mais de 10 casos confirmados de Covid-19, contudo, a doença já está a ter um impacto negativo na economia, com comerciantes a enfrentar dificuldades para importar mercadorias, o que culminou com o aumento dos preços nos principais mercados, sobretudo da capital do país.

A nossa Reportagem visitou os maiores mercados da cidade de Maputo, onde verificou que, de facto, há muitos produtos em falta, muito por conta das restrições na circulação de pessoas e bens na única fronteira terrestre com a África do Sul ainda aberta.

Se, por um lado, o alho, a par de outros produtos de primeira necessidade que são importados da China, triplicou o preço, por outro lado, produtos como batata, cebola, tomate e outros que são importados da África do Sul começam a escassear, causando uma aparente especulação dos preços.

No Mercado Grossista do Zimpeto, os vendedores queixam-se de demora na fronteira, devido às restrições, que fazem com que tudo que sai e entra seja submetido a um “olho clínico” por parte das autoridades de fronteira e sanitárias dos dois países.

“Depois que surgiu esta doença, temos trabalhado com limitações. O processo de desembaraço de mercadorias passou a ser rigoroso, o que faz com que os camiões cheguem tarde e, por vezes, ficam retidos na fronteira. Por exemplo, fiquei somente com cinco sacos de batata e três de cebola, e não vão aguentar por muito tempo”, conta Sara Alberto.

Por causa da escassez dos produtos, os preços dispararam, e conforme justificam, quando há menos oferta no mercado, o único que tem sai muito caro. “Não fazemos de propósito, nós também passamos por dificuldades para ter, e adquirimos a preços elevados, por isso, quando chegam aqui ao mercado, o preço também é outro, as coisas estão complicadas”, acrescentou a fonte.

“Estamos numa situação de muita incerteza em termos do andamento do negócio. Por exemplo, eu tenho alguns produtos que paguei na China, mas não podem embarcar porque fecharam as fábricas e os armazéns. Estamos numa fase difícil”, disse outro comerciante.

O alho, que nos últimos dias era importado da China, já não existe nos mercados, o único que está a ser vendido é o nacional que, segundo os comerciantes e alguns compradores, não tem qualidade, e é vendido a um preço muito elevado. Nos dias em que a nossa Reportagem esteve no local, um copo de alho era vendido a 60 meticais, contra os 20 meticais anteriormente praticados.

A batata, que era antes vendida a 280 meticais o saco, agora está a ser vendida a mais de 800 meticais. O mesmo acontece com a cebola, que dos anteriores 200 meticais passou a ser vendido a acima de 700 meticais o saco. O arroz, no limiar do stock nalguns pontos do país, é vendido a 1150 MT a 1200 MT, contra os anteriores 1050 MT.

“Preços poderão subir mais se a situação continuar assim” – Mukhero

 

O presidente da Associação dos Importadores Informais de Moçambique (MUKHERO), Sudecar Novela, disse ao Dossiers & Factos que a subida dos preços tem a ver com a pandemia do coronavírus, porque esta interfere directamente nos negócios, porque os comerciantes e importadores compram os produtos a preços elevados e sofrem para ter os mesmos, por isso faz sentido que na hora de revender façam preços elevados.

A fonte explicou ainda que, por enquanto, ainda não há risco de escassez de batata ou cebola nos mercados, porque a fronteira de Ressano Garcia ainda não foi encerrada, mas não deixa de prever um caos, se tal vier a acontecer.

“Numa sociedade, quando a procura é maior que a oferta, a tendência é de os preços dispararem, isso não seria diferente desta vez, porque o país está interdito de importar da China, nosso maior mercado, por isso a tendência é de os preços dispararem cada vez mais, isso é normal”, explicou Novela.

“Somos dependentes de quase tudo”

Novela explicou que o alho, nos últimos dias, era adquirido na China, e em todos os mercados era vendido o alho chinês, agora, com o surto de coronavírus, cancelaram os vistos e nenhum moçambicano vai à China, por isso há escassez.

“Sabe-se que somos dependentes de quase tudo, e agora, por exemplo, já não há alho chinês, estamos a consumir o nacional, que é muito fino, sem qualidade. Há ainda algum alho chinês, mas é muito caro, e isso faz com que até mesmo o nacional seja mais caro. Não é menosprezar a produção nacional, mas é que a nossa produção não tem qualidade, não temos em quantidade para abastecer os mercados e o preço é sempre muito alto, isso não ajuda”, explicou.

Para o presidente da MUKHERO, com este surto do novo coronavírus, era suposto abrir-se uma oportunidade para vender os produtos nacionais, “podiam vender o alho nacional, mas a bom preço, sobretudo como a qualidade é incomparável com a do alho chinês, haveria espaço para despertar a atenção sobre o produto nacional, mas não é o que está a acontecer”.

Novela disse que, por enquanto, o que tem atrapalhado o trabalho dos importadores é o rastreio, porque, para o fazer, as pessoas têm que descer dos camiões e formar fila, e isso leva um tempo, na ida e na volta, acabando por atrasar o fornecimento aos mercados.

“Moçambique deve aprender com o COVID-19 a ter indústrias internas”

 

O economista Egas Daniel olha para este cenário como normal, porque quando há muita procura e pouca oferta, naturalmente os preços tendem a subir, e se o cenário continuar assim, os preços poderão subir cada vez mais.

“Estamos a observar o encerramento de algumas fronteiras, e o nosso país importa mais do que produz, e os países que produziam e ofereciam a maior parte dos produtos já não estão a oferecer, por causa dessas restrições. O mecanismo de ajustamento do mercado vai resultar no aumento dos preços, é inevitável que os preços dos produtos aumentem no mercado, principalmente com o encerramento de algumas fronteiras da África do Sul”, observou.

Em termos gerais, esta dinâmica associada ao coronavírus, de alguma forma, reduz expectativas da maior parte dos acionistas a nível internacional, e a queda do preço do petróleo e de outras commodities, de forma indirecta, vai afectar a economia do país, de acordo com Egas Daniel.

“A curto prazo, provavelmente não se reflita o efeito internacional da redução dos preços das commodities para o país, mas é preciso chamar atenção para um certo fenómeno, porque, com certeza, se vai ressentir. Podemos dizer que redução do preço do petróleo é bom porque vamos ter preços baixos de combustível, mas não é algo que acontece de forma isolada e não se espera que de forma automática tenhamos a redução do preço do petróleo. Aliás, sendo Moçambique um país cujo crescimento económico nos últimos anos assentou na indústria extrativa, temos que estar mais preocupados com a redução dos preços das commodities, porque a indústria extractiva que gera o gás natural e o carvão mineral, que são os grandes produtos do país, poderão ver seus preços reduzidos. Ao reduzir o preço das commodities, reduz-se o valor das exportações de Moçambique, e isso se reflete na redução do nível de fluxo de capitais que vão ao Banco Central. Isso não é bom”, explicou.

“O país deve ter capacidade produtiva para abastecer o mercado”

A lição que fica para Moçambique, com este tipo de pandemia, segundo o economista, é que o país deve ter capacidade produtiva para abastecer o mercado, pelo menos nos produtos em que tem potencialidades.

“Temos potencialidades para a produção de muitos bens que iam, na verdade, abastecer o mercado interno, garantir a segurança alimentar, exportar e não só, temos também os recursos naturais que são talvez o elemento mais forte que existe. Esses recursos poderiam estar a gerar receitas para o país, ajudar a alimentar a balança de pagamentos. O grande problema que tem o país é que quando produz carvão manda tudo bruto para China, não usa nem um pouco para o mercado interno, não temos nenhuma indústria de carvão, produzimos e mandamos tudo. E bastou a China ter coronavírus e não querer mais carvão para afectar a economia, então a lição é esta: ser auto-suficiente na produção e saber aproveitar os recursos internos”, sustenta Daniel.

. Economista alerta para risco de hiperinflação

 

Por seu turno, o economista Elcídio Bachita disse que se o cenário continuar assim nos próximos dias, poderá verificar-se  uma hiperinflação, porque, com as restrições que já se verificam, há menos oferta e mais procura.  

“Naturalmente, essa situação vai trazer algum impacto para a economia nacional, porque o nível de consumo das pessoas vai baixar, por causa da fraca capacidade de oferta por parte do sector agrícola, e atendendo e considerando que o nosso país tem como base de desenvolvimento a agricultura, inevitavelmente vamos ter uma queda naquilo que era a previsão para o crescimento da economia moçambicana”, disse.

Bachita disse que pandemias como o coronavírus vêm mesmo para ensinar países como Moçambique a produzir para abastecer os mercados internos e garantir a segurança alimentar.

“É necessário que se invista em toda a cadeia de valor no sector da agricultura, no agro-processamento, na formação ou capacitação dos produtores, para o desenvolvimento da agricultura, como forma de garantir a sustentabilidade do país”.

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