Dominguez espalha magia numa noite em que revelou-se seu natural sucessor

– AS ASPAS DO EDITOR

Cai a tarde na cidade de Maputo, o céu está carregado de nuvens, cai chuva miúda e de forma intermitente, como que a anunciar que os deuses iriam estar do nosso lado. Nas ruas próximas ao Estádio Nacional do Zimpeto, ouvem-se vuvuzelas e apitos. Apesar da chuva, muitos adeptos vão chegando aos poucos ao Estádio Nacional do Zimpeto.

Texto: Reginaldo Tchambule

Frente a frente estavam duas selecções que já se conhecem, Moçambique e Ruanda. A história manda dizer que a última vez que as duas equipas se defrontaram no Zimpeto, os forasteiros levaram uma vantagem de uma bola sem resposta, mas os Mambas entraram a comandar e deixaram claro, logo de início, que queriam vencer, e bem.

Dentro das quatro linhas, há um senhor franzino que se destaca. Nas costas carrega o número 7 e no braço a braçadeira de capitão. A cada toque seu na bola, os adeptos deliram. Mas também evidencia-se um outro jogador, a partir do meio campo para cima, cheira a leite e mal cabe-lhe nas costas o número 20 que carrega, mas vai dando o ar da sua graça. Parece não se intimidar no meio de adultos.

Trata-se de Dominguez e Geny Catamo. Os dois representam os dois extremos da nossa selecção. O primeiro, já veterano, vai queimando os últimos cartuchos com mestria, parece estar disposto a provar o ditado que diz “quanto mais velho, melhor o vinho fica”. O segundo está ainda a dar seus primeiros passos, mas os dois têm um denominador comum: uma grande habilidade com a bola, bons dribles e relativa segurança na execução de passes de mestria, diga-se.

Foi uma noite inspirada para o capitão Dominguez, que apesar dos seus mais de 35 anos de idade continua a exalar ares de jovialidade. Correu o campo todo feito um “miúdo” de 17 anos, aliás, fez lembrar os tempos áureos daquele miúdo que há pouco mais de 20 anos encantou a todos e viria mais tarde a ganhar o nome de “puto maravilha”.

O capitão dos Mambas participou dos lances que resultaram num dos dois golos com que Moçambique bateu Ruanda, mas também criou tantas oportunidades desperdiçadas e esteve, por várias ocasiões, próximo de marcar. Golos à parte, o puto maravilha esteve endiabrado, distribuiu passes de todo tipo e enfeites. Parecia estar a correr com miúdos do bairro. O público respondeu à altura, uma exibição divinal. A cada drible, cada toque mágico ou passe perfeito, estiveram lá os adeptos a ovacionar aquele que é um dos jogadores, senão o mais habilidoso que o país já viu nascer.

África também esteve lá e viu. Na sala de imprensa, um jovem repórter que vinha na comitiva do Ruanda acabou perguntando a Dominguez qual é era a fórmula que ele usa para, aos quase 36 anos, jogar a bola tão maravilhosamente como se fosse um “puto”.

Não era para menos. Dominguez esteve no seu dia, sim. E não só inspirou a confiança dos adeptos nos Mambas, como também inspirou a rapaziada com pouca quilometragem nessa coisa de selecção. Falando em rapaziada, parece que o testemunho está a ser bem passado entre um ídolo e seu admirador, que hoje são colegas de balneário. Notou-se um entrosamento entre Dominguez e Geny Catamo, uma jovem promessa que faz ter “saudades” do futuro.

O “miúdo” é um verdadeiro génio. Exalou ares de craque. Tem toques magistrais, bom domínio de bola e uma segurança de fazer inveja a qualquer um. Mas há um pormenor que faz alguma diferença. O puto é bom de drible. Não ouvi dizer, vi com os meus próprios olhos de espreitar coisas.

Com arranques esporádicos e bem calculados e dribles à mistura, o puto chegou a chamar para si o protagonismo nalguns lances dignos de realce. Pelas conversas afora, há quem já traça algumas comparações de perfil com o Dominguez. Aliás, há quem já enche a boca para dizer que se o miúdo continuar a jogar àquele nível, poderá ser o substituto natural do “puto maravilha”.

A ver vamos, o tempo é que dirá. Para trás, ficam memórias de uma noite em que se não tivéssemos sido perdulários no ataque, teríamos espantado o mundo com uma goleada à moda antiga.

A rapaziada de Luís Gonçalves jogou de forma incrível, como não se via há muito tempo. Foi como se tivessem tirado alguns quilos das costas. Jogaram alegres, cada um fez o melhor que sabe fazer. Qualquer coisa que tentassem fazer saía na perfeição ou estava quase lá. Enfim, foi um jogo orgásmico.

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