EDITORIAL: Marcelino dos Santos não ensinou o povo a chorar 

Por: Serodio Towo

Calou-se uma voz meio roca, com um tenor alto, voz cheia de vida, que saia dela palavras determinantes e cheias de rigor, poder e instruções. Calou-se essa voz porque seu dono, Marcelino dos Santos, morreu!

Há quem diga que morreu para seu merecido descanso, depois de ter vivido nove décadas cheinhas. Sim, nove longas décadas, ou simplesmente 90 anos, divididos entre o bem e mal, entre momentos de alegria e de tristeza, e mesmo que não se queira dizer, também entre o bem ao próximo, tal como manda a bíblia, há, de outro lado, o mal para com o seu próximo.

Isto e outras coisas fizeram Marcelino dos Santos e, talvez seja isso, que o transformou em um grande homem. Não nos referimos a grandeza em termos de estatura física, mas sim daquilo que é o reconhecimento que lhe é guardado em Moçambique e além fronteiras.

Várias são as acções praticadas por ele, entanto que militante da Frelimo, mas antes, como jovem que pertenceu ao grupo de outros homens da geração dele, na altura, que pensaram em libertar a África do jugo colonial.

Também existem diferentes actos por ele praticados, que talvez ficaram verdadeiramente marcados na história da sua vida e de outros moçambicanos, actos esses, praticados durante o período pós independência nacional.

Enfim, é difícil descrever Marcelino dos Santos, porque só os anos de vida que ele teve,  por si só, representam uma história. Mesmo se Marcelino dos Santos não tivesse sido um dos que lutaram pela África e pelo Moçambique em particular. Com a idade dele, já era uma fonte para consulta da história e da cultura do nosso país ,pelo que é merecido o reconhecimento que lhe é feito.

De certeza que ficarão entre os moçambicanos os ensinamentos que ele deixou, ficarão para este povo as boas recordações registadas em poemas da sua autoria, as grandes entrevistas por ele concedidas, o espírito patriótico que lhe era e sempre foi peculiar, mas, também, ficam as saudades para aqueles amigos, companheiros de “trincheira”, que lado a lado, sempre estiveram com ele até, talvez, a sua morte.

Espera-se também que passe ou fique para trás a dor ou rancor que certos, se não muitos, moçambicanos guardam para com este homem, que tal como fizemos referência anteriormente, não fugiu à natureza humana, pelo que fez o bem assim como o mal.

Porque morre-se, apenas educa-se que se fale dos feitos bons do malogrado, saudades enormes ficarão para muitos jovens, outros, hoje senhores que ele os assumiu como pai, ajudando-os, a suportar os encargos, os custos de escola, dando lhes de seguida, caminho para o emprego e para a vida em diante.

São muitos jovens provenientes de modestas famílias que Marcelino dos Santos os assumiu como filhos e pagou a escolaridade, até que atingissem o nível superior. Mas, não só ficarão saudades para aqueles jovens que em noites de discotecas, desfilaram com um já ancião, mas grande personalidade em pistas de dança sem, como dizem as testemunhas, criar embaraço para o ambiente juvenil.

Dos Santos, ou Kalungana, foi um homem multifacetado, pessoa que só não entra para a quadra tentar lutar para as vitórias das nossas equipas e selecções de basquetebol porque talvez não soubesse jogar, ou porque a idade não lhe permitia, mas trocou essa vontade, por marcar presenças para apoiar e fazer outros moçambicanos apoiarem os nossos representantes.

Quando falamos do basquetebol é uma modalidade que escolhemos para referenciar, mas sabemos de antemão que, no futebol, Marcelino dos Santos não faltava aos relvados para assistir, quer jogos das nossas selecções, assim como das equipas em especial.

Ele não escolhia as modalidades, disso que o diga Maria de Lurdes Mutola, que venceu medalhas olímpicas e do mundo na presença do grande “kota”, que hoje se foi, e se foi para sempre.

Foi-se para sempre um homem que, tal como todos nós, tinha consciência de que um dia ia morrer, daí que sempre defendeu que as Linhas Aéreas de Moçambique (LAM) não podiam ser privatizadas quando ele estivesse vivo, talvez só depois da sua morte.

Isto quer dizer que estava consciente que, mesmo com tanto poder que teve e tinha, da morte, ele não escaparia. Morreu, seguiu os seus camaradas que há muitos anos o antecederam, referimo-nos a Amílcar Cabral, Agostinho Neto, Patrice Lumumba, Miguel Trovoada, Eduardo Mondlane, Samora Machel,   Kwame Nkrumah, entre tantos outros líderes revolucionários.

Dos Santos morreu, e esta semana será o seu funeral e naturalmente que muitos moçambicanos choram e continuarão a chorar por este homem que acabou sendo “cobarde”.

Usamos este termo porque Dos Santos, mesmo sabendo que caminhava para a morte, não ensinou aos moçambicanos como deviam o chorar. Esqueceu-se que, aquando das cerimónias fúnebres de Samora Machel, chorou e disse: “Samora, o povo quer te chorar, o povo te chora, mas Samora, não nos ensinaste a chorar”. Ele, também o povo, chora-lhe e quer chorar pela sua morte, mas dos Santos não ensinou o povo a chorar! serodiotouo@gmail.com

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