“Elite moçambicana não lê” – Japone Arijuane

O jovem poeta e escritor Japone Arijuane, com dois livros lançados, olha para as elites moçambicanas como pessoas que estão mais preocupadas com questões económicas ou em ficar mais endinheiradas, deixando a cultura para atrás, sobretudo a literatura, o que mostra que não se lê, desde a elite até à base.

Texto: Arão Nualane

Em entrevista ao Jornal Dossiers & Factos, o poeta e escritor Japone Arijuane afirmou que o primeiro desafio que a literatura moçambicana tem é criar condições para existirem leitores, pois o país ressente-se da falta dos mesmos.

Outro ponto levantado por Arijuane é que, nos lançamentos de livros, aparecem apenas os confrades, e o público-alvo não se faz presente, pelo que, na visão do autor, fazem uma espécie de “Xitique”, onde “eu vou para o seu lançamento, e você ao meu, e isso mina a nossa literatura”.

Arijuane faz um paralelismo, olhando para a questão política, em que não se lê ao mais alto nível. Por exemplo, diz o nosso interlocutor, “quando se fez o relatório da Kroll, todos que era suposto lerem e que eram envolvidos, não o tinham feito, e diziam de forma clara que não tinham lido, como se não ler fosse uma desculpa plausível.

 Para demonstrar os baixos índices de leitura, o jovem escritor lembrou-se de Gilles Cistac, nos seguintes termos: “Foi assassinado por ter ido à televisão defender que a Constituição da República abria espaço para a criação de províncias autónomas”. Entretanto, para a nossa fonte, se as pessoas tivessem a oportunidade de ler o livro de Severino Ngoenha, intitulado “Das Independências às Liberdades”, iriam ver que “há ali um tópico do federalismo moçambicano. Nguenha fala de forma mais profunda e complexa, mas como não foi a televisão a falar disso, ninguém sabe, porque há défice de leitura”.

 No entender de Arijuane devia se destruir os televisores dentro das famílias moçambicanas e colocar-se bibliotecas.

“Não se ganha a vida como escritor”

 Num outro desenvolvimento, o poeta afirmou não ser possível viver de literatura em Moçambique, desde o alto nível até à base, uma vez que a literatura ainda não é encarada como um elemento principal para a formação da cidadania, razão pela qual não vende.

 Arijuane entende que escritores como Mia Couto, Paulina Chiziane e outros precisaram de ter um reconhecimento fora de Moçambique, para ter uma aceitação internamente.

 “Viver da literatura significa ter pessoas que compram o livro, mas porque as pessoas não lêem é impossível viver da mesma”, argumentou, para depois dizer que existem muitos factores que quando combinados fazem com que haja fracasso na literatura. Muitas vezes, as pessoas “não lêem porque não sabem ler, mas porquê ler?”

 Mais adiante, o nosso interlocutor considerou que temos num Governo em que as referências não são intelectuais, porque estão mais ligadas a factores económicos. Daí que no país está a surgir uma elite inculta, que só aparece em grandes carros e  concentra-se em coisas fúteis”.

 Na visão do nosso entrevistado, estamos perante uma elite endinheirada, que não está preocupada com questões ligadas à arte, e que está a afundar o país.

 Rompimento com a poesia protonacionalista

Ainda com Japone, recuámos no tempo da literatura, e parafraseando o Professor Noa, disse que a literatura moçambicana surge sobre o signo de qualidade. E, se formos a ver as pessoas que fundaram a mesma, no caso dos protonacionalistas, como Noémia de Sousa, José Craveirinha, entre outros, existe um cunho de qualidade enorme, pese embora haja uma poesia de combate à colonização, em que o negro era um “instrumento de trabalho.

 Na percepção da nossa fonte, a poesia de combate caiu no tempo, criando um rompimento, provocado pelo movimento “Charua”, que faz uma reviravolta para buscar a “nossa identidade, buscando o belo e o amor, escrevendo sobre o dia-a-dia dos moçambicanos”.

 Aliás, Japone diz que a literatura é diacrónica, o que quer dizer que cada momento tem as suas causas, sendo que a actual juventude, apesar de ter os seus problemas, como a situação do “my love”, por exemplo, trabalha muito com a poeticidade. É por isso que não hesita em dizer que a nova vaga de poetas tem uma tendência de escrever sobre o existencialismo, onde sempre se pergunta quem é o homem moçambicano e para onde e que vai.

 

Da Maganja da Costa ao mundo da literatura

De referir que Japone Arijuane é natural da província da Zambézia, nasceu na Maganja da Costa. O pai era professor, e juntamente com a mãe e seus irmãos estabeleceram-se em Quelimane.

 Conforme conta, é na cidade de Quelimane onde estão todas as “chamas acesas” da infância, é lá onde se descobre como gente, e é onde começa a influência literária. “E porque gostava, de cantar, com amigos, criou um grupo de rap, tendo sido este estilo musical que o levou às bibliotecas, “na busca incessante de livros” que os permitissem produzir música com bom conteúdo e boas rimas. Numa das idas à biblioteca, descobriu a literatura moçambicana.

 Em Maputo, no ano de 2009, fez parte da criação do movimento literário Kuphaluxa, que queriam que o mesmo fosse o “trampolim” da literatura moçambicana, organizando debates sobre o livro, onde escritores faziam palestras sobre o assunto.

 Nessa senda, tinham que se documentar, para estarem preparados para os dias dos debates. Depois constataram que podiam escrever e lançar seus próprios livros.

 A constatação permitiu a Arijuane a produção do livro “Dentro da Pedra ou a Metamorfose do Silêncio”, que leva consigo um cunho metafórico, com o objectivo de fingir poeticamente. Falar das coisas, “não querendo falar”.

 “A Metamorfose do Silêncio era no sentido de buscar dentro do indivíduo uma espécie de calma, que precisamos ter para nos entendermos como seres humanos, primeiro, para depois entendermos o outro. Se há um amor próprio, a probabilidade de gostar dos outros é maior”, esclareceu Arijuane à nossa equipa de reportagem.                        

A “Metamorfose do Silêncio” permitiu ao moçambicano ganhar um prémio em Lisboa, com uma distinção de Poeta Revelação.

Este ano, lançou o seu segundo livro, intitulado “Ferramentas para Desmontar a Noite”, onde considera que há mais tranquilidade e domínio da consciência poética. Quando fala da noite no livro, refere-se a tudo o que é obscuro, ao que não nos deixa olhar para o futuro. Fala das guerras, da fome, da má governação, da corrupção, mas tudo no sentido poético.

 

Mais  Destaques

Scroll to top
Skip to content