“A propaganda das dívidas ocultas destruiu o ambiente de negócios” – desabafa Samuel Muzila

  • “Em Moçambique não existem empresários”
  • É filantropo e apoia no combate e prevenção do coronavírus em Boane e Matola

 

Disponibilizou, recentemente, numa acção coordenada com a administração do posto administrativo da Matola Rio, sete tanques com água e sabão para a lavagem das mãos em alguns pontos de grande aglomerado populacional do distrito de Boane, na província de Maputo, e um camião com megafones, que circula pelos diferentes pontos a sensibilizar a população deste ponto do país sobre a necessidade de prevenção do novo coronavírus. Chama-se Samuel Muzila, um homem dedicado a causas, que não gosta de ser chamado de empresário. Na entrevista que se segue, fala da sua vida, sua devoção para causas filantrópicas, mas também deixa o seu ponto de vista sobre a vida política e económica do país. Nas entrelinhas, Muzila traz teorias económicas para demonstrar que “Moçambique não tem empresários”, pois, no seu entender, existem somente homens com muito dinheiro, que vão a outros países, compram produtos acabados para vir vender. Com ligações umbilicais à Frelimo desde os tempos da revolução, o nosso entrevistado entende que mais do que a própria dívida oculta foi a propaganda que destruiu o ambiente de negócios e a economia do país. Acompanhe a seguir os excertos mais importantes.

Texto: Reginaldo Tchambule

Dossiers & Factos – Quem é Samuel Muzila, quais são as suas raízes e que caminhos trilhou até se tornar o homem que é hoje?

Samuel Muzila (SM) – Sou um moçambicano, filho de pais humildes. Tal como outras crianças do meu tempo, frequentei a escola primária e mais tarde fiz o ensino técnico, onde concluí o curso de marceneiro e carpinteiro e depois me formei como engenheiro mecânico. O meu pai vem de Inhambane e a minha mãe de Chidenguele. Nasci no Chamanculo, na zona de Cape-Cape, numa família grande, e tive uma infância normal. A minha mãe era a segunda mulher e quando eu nasci, meu pai já tinha mais de 50 anos, e trabalhava como servente e bombeiro.

Naquele tempo, bastava completar 2 anos, quando um outro irmão estivesse quase a chegar, eras transferido para a creche (risos)…, é assim como chamo a casa da minha avó, para onde fui mandado. Então cresci sempre ao lado da minha avó. Do meu pai, praticamente não sei muita coisa, porque tive pouco contacto com ele.

D&F – E onde buscou forças para superar as adversidades e a ausência da figura paternal?

SM – Naquela altura, a escola era a saída para a vida. Como criança, animei-me como todas as outras e fui à escola. Fui à escola oficial em 1968, onde fiz a pré até à 4.ª classe. Depois fui à escola de artes e ofícios, onde fiz o curso de marcenaria e carpintaria. Naquela altura, bastava sair da formação, eras imediatamente enquadrado nas empresas, para a produção, e eu tinha oportunidade para trabalhar na Pandora, Mobilarte, Marfeu, entre outras grandes carpintarias.

Lembro-me que a minha mãe, quando eu lhe contei que acabei o curso, estava à espera que eu fosse trabalhar, porque as dificuldades eram enormes, o meu irmão mais velho acabava de ser recrutado para a tropa e o outro havia abandonado a escola para ir trabalhar, para ajudar a família.

No entanto, nessa altura, um amigo meu, com quem estudei no instituto, falou-me da possibilidade de continuar a estudar na escola industrial. Hesitei, porque não tinha condições, mas ele encorajou-me e ajudou-me, porque ele vinha de Inhambane, e, nessa altura, as famílias daquele ponto do país tinham algum dinheiro, que ganhavam com a venda de cocos. Para chegar à escola, eu saía de Juba, a pé, até ao Cruzamento, onde apanhava machimbombo até Vitória, de onde caminhava até Museu. Os meus irmãos ajudavam-me, mas as dificuldades eram muitas, por isso tínhamos que tirar cacana na machamba, para vender no Xipamanine, caçar passarinhos, para vender no Mercado Central, entre outras actividades que nos ajudavam.

“Agora os miúdos são muito parados”

 

D&F – Não estou a ver, hoje, um jovem a ir à machamba, tirar cacana para vender, de modo a conseguir ir a escola…

SM – Realmente, mas naquela altura as coisa eram diferentes. Agora, os miúdos são muito parados, naquela altura, a sociedade estava tão estruturada de tal forma que, não importa a idade que tivesses, tinhas que saber que tens de varrer o quintal, lavar os pratos, cortar lenha, ir pastar cabritos e outras tarefas de casa. Havia tarefas das meninas, mas, às vezes, tudo se confundia.

D&F – Quanto tempo fica no instituto comercial?

SM – Fiquei três anos, e fiz o curso de Noções Gerais de Comércio e Contabilidade. Aí é onde as coisas começaram a mudar um bocadinho, porque, já no segundo ano, começaram as nacionalizações, muitos professores fugiram, e eu fui um dos participantes daquela reunião que o Presidente Machel orientou no Campo de Maxaquene. Fiz parte da geração dos que foram carregados para ir abrir o Centro 8 de Março. Finda a reunião, o director da escola comercial fez uma segunda reunião, onde seleccionou os melhores estudantes, e eu fui chamado para ser professor na Escola Secundária da Matola.

D&F – Estava preparado? Como encarou o desafio de ser professor ainda muito novo?

SM – Naquela altura, qualquer miúdo estava preparado para qualquer actividade, até porque já tínhamos tido a independência, e com Machel atrás de nós. Nós nos orgulhávamos de ser a seiva da nação. Nós nascemos e encontrámos uma sociedade super organizada. Dei aulas e continuei a estudar na Escola Francisco Manyanga, onde fiz a 10.ª classe. Nessa altura, recebia sete contos e entregava todo o salário à minha mãe. Era muito dinheiro.

Então, porque ia crescendo, conheci uma menina e comecei a namorar. A irmã dessa minha namorada fala-me de uma vaga na Direcção Provincial do Plano e Finanças, fui lá substituir uma senhora e fiquei chefe do Departamento de Estatística, mas continuei a dar aulas. Trabalhei durante três anos, e na altura, o governador era José Moiane.

No meio do caminho, decidi continuar a estudar. Informei à minha família e minha namorada. A minha decisão não foi bem acolhida, do lado da minha família nem da minha namorada, de tal forma que ela decidiu voltar para sua casa.

D&F – Habituado a pegar dinheiro. Em que confiava?

SM – Não tinha nenhuma poupança, por isso contei novamente com a ajuda dos meus irmãos, mas foi fácil, porque com o curso que eu tinha, podia fazer qualquer coisa. Concorri e fui admitido para Engenharia Química. Andei dois anos, e um professor aconselhou-me a seguir Mecânica. Mudei de curso, e foi assim que me tornei engenheiro mecânico.

“Decidi não trabalhar mais para ninguém”

 

D&F – E foi fácil estudar, tendo em conta que já havia experimentado o dinheiro?

SM – Foi fácil. Os alunos que não eram bolseiros e não viviam no lar tinham possibilidade de estudar com apoio de algumas empresas que suportavam todos os seus encargos. Os nomes dos alunos nessa condição eram levados ao Ministério do Plano e Finanças, que, na altura, era dirigido por Tomás Salomão. Então, fui lá, e era tão bom naquele tempo, pois era só chegar e dizer: ‘camarada secretária, peço falar com o camarada ministro’, e naquele instante era recebido.

Então, durante a minha formação, eu tinha uma empresa que me pagava um salário, uma espécie de bolsa. Foi assim que acabei o meu curso e comecei a trabalhar. Depois aconteceu um roubo e houve alguma confusão, e a partir daí (1998), decidi não trabalhar mais para ninguém, porque das poucas vezes em que estive com o meu pai e fui vê-lo onde trabalhava, quase sempre era insultado pelo seu patrão.

D&F – Largou o emprego para ficar em casa?

SM – Voltei para casa, continuei a caçar passarinhos e a fazer esculturas, quando um amigo meu me convida para sermos sócios numa empresa. Aceitei, aquilo deu no que deu. Dirigimos os estaleiros navais de Maputo, ganhamos muito dinheiro, mas, em 2004, olho para trás e descubro que não tenho nada como pessoa, embora fosse sócio, com 20 por cento e um bom salário. Deixei a sociedade e vim de novo ficar em casa, embora tivesse já filhos e mulher. Meus filhos estudavam em escolas privadas, como Kitabu, mas, por algum motivo, eu não me sentia satisfeito.

Fiquei em casa, e um amigo, com quem trabalhei como professor, convidou-me para trabalhar com ele. E eu disse-lhe que não queria mais trabalhar para ninguém. Arranjei um espaço e montei minha própria oficina, na Matola Rio, e mais tarde montei minhas bombas de combustível, entre outras coisas.

“Moçambique não tem empresários”

 

D&F – Senhor Samuel Muzila conseguiu montar sua própria oficina e diversificou negócios, por que não aceita ser tratado como empresário?

SM – Ser empresário não é coisa fácil. Estudei a ditadura do proletariado no contexto do marxismo-leninismo e pude perceber que tudo, para se mexer na vida, precisa de ter operário. Karl Marx defende que você não pode ser empresário se não faz acumulação de capital, e aqui em Moçambique temos pessoas que se chamam empresários só porque compram coisas e vêm vender.

A verdade é que movimentam muito dinheiro, mas não são empresários. Um empresário tem que ter capacidade de ter uma unidade de produção, onde entra madeira daqui e sai cama dali. Acha que se tivéssemos empresários estaríamos a chorar desta crise?

D&F – E o que será a acumulação de capital?

SM – Acumulação de capital não é juntar dinheiro, mas sim trabalhar, ter dinheiro e investir continuamente. Capital é o edifício da sua empresa, a máquina, o trabalhador e outros bens da sua empresa. Enquanto eu não acumular capital, não posso considerar-me empresário. A pujança de um empresário está nos seus bens, não é ganhar um milhão e ir comprar um Mercedes, colocar os filhos a estudarem na América e pensar que é empresário. Para mim, Moçambique não tem empresários.

D&F – Pode explicar melhor?

SM – Se tivéssemos empresários, não estaríamos a sofrer os impactos desta crise. Eu julgo que todos ainda somos candidatos a empresários, porque se tivéssemos já descoberto o que é ser empresário, não iríamos à China comprar computadores para vir cá vender, não iríamos à China comprar machimbombo pronto para circular aqui no país. O empresário abre uma empresa, compra chassis e o resto ele faz. Um empresário é aquele que compra o chassis de machimbombo e faz as cadeiras e o resto aqui no país, porque quando monta fábrica de cadeiras aqui em Moçambique está a criar uma cadeia.

Infelizmente, temos aqui muitos que vão à África do Sul vão buscar banana e vêm vender, vão buscar batata e cebola e vêm vender, por essa razão, temos muitas pessoas que se auto-intitulam empresárias, mas não têm nem sequer uma unidade de produção, ou seja, não produzem nada, são apenas revendedores.

D&F – E ultimamente há um grupo de novos empresários, entre aspas, cuja missão é andar pelo mundo captar investimento e parcerias. Como olha para este grupo?

SM – Quando somos 20 aspirantes a empresários que investimos em transformar a matéria-prima em alguma coisa para depois ser vendida, fazemos um peso, mas se somos três ou quatro, e depois existe um milhão dos que compram para vir vender produtos acabados, é difícil dizer, de facto, que nós temos empresários neste país.

Você sabe que o Land Rover vinha só o chassis e era montado aqui, e era um carro de luxo? O machimbombo vinha em chassis e era montado aqui, e quando era miúdo ficava na estrada para assistir os chassis a saírem do porto, o resto era montado aqui em Moçambique. Tínhamos empresas que faziam isso.

D&F – E como é que se justifica que hoje, passados mais de 45 anos de independência, inseridos numa economia de mercado, não tenhamos uma empresa sequer desse nível. O que falhou?

SM – Eu não posso dizer nada sobre isso, a única coisa que posso dizer é que no tempo do socialismo, nós tínhamos instituído a emulação socialista, onde muitos moçambicanos mostraram a capacidade deles de produzir coisas, muitos moçambicanos produziram máquinas que ninguém esperava, falo de alfaias, moinhos, entre outras.

D&F – Mas o que falhou? Foi a mudança do sistema político e económico?

SM – Para falar a verdade, a partir de 1986, nós fizemos reformas, e estas deram no que deram. Houve privatizações, e as empresas começaram a fechar. Lembro-me que o Presidente Samora tinha uma grande visão, por isso mandou muitos jovens para Cuba, RDA, Rússia e Argélia. Penso que nessa altura ele se tinha apercebido de que para governar este povo, os jovens tinham que saber fazer coisas. Posso garantir-lhe que 99 por cento dos que estão hoje a governar são fruto dessa visão de Machel, pois foram mandados para estudar fora, em países como Cuba e Rússia, e hoje estão a segurar o país, apesar da propaganda do imperialismo ocidental.

“Apropaganda das dívidas ocultas destruiu o ambiente de negócios”

D&F – Abre esta oficina, começa a trabalhar e a dado momento diversifica o seu investimento. Quais são os constrangimentos que teve?

SM – No início, tudo correu muito bem, até que começou esta crise. É por isso que não aceito ser chamado de empresário. Estou a trabalhar para que o meu neto seja empresário. Temos moçambicanos com muito dinheiro, mas que não são empresários. Têm muito dinheiro, fazem negócios, mas não são empresários.

D&F – Refere-se a que crise? A crise da dívida pública?

SM – Eu acho que esta propaganda da dívida pública prejudicou muito as empresas, porque eu não consigo perceber como é que um país como o nosso pode ser tão refém de uma dívida de dois mil milhões de dólares. Olha, na história dos povos africanos, em nenhuma língua nacional existia a palavra corrupção. Alguém veio ensinar-nos e mostrar como se processa isso. Provavelmente, como pobres que somos, fomos enganados.

D&F – Por quem?

SM – Calma, … vou aí. Eu nunca vi um homem a dizer à mulher: ‘olha vamos gerar um filho bandido’, geramos filhos com a ideia de eles serem os melhores do mundo, mas a sociedade molda as pessoas. Quando começaram aquelas prisões todas, disse a um amigo que ele iria ver que aquele branco (Jean Boustani) é da CIA, e no fim do julgamento ele vai ser inocentado. Foi o que aconteceu, porque, na visão do ocidente, os pretos são os únicos que roubam. Há interesses inconfessos, e a propaganda ocidental é muito grande. Infelizmente, os nossos jovens são presas fáceis dessa propaganda. Não temos nacionalistas, muito menos patriotas neste momento.

Nós ficamos com vergonha de andar na estrada por pertencermos à Frelimo, por termos os jovens sempre a nos criticar, mas, ao fim e ao cabo, Boustani está ali a gozar a vida, e o nosso país está onde está.

D&F – Está a querer dizer que tudo não passou de uma ratoeira ocidental?

SM – Sim. Aqueles que trouxeram a palavra corrupção, vieram com o dinheiro e disseram “assina aqui, vou te dar um milhão de dólares”, conseguiram. A Europa e a América conseguiram. Agora estamos fragilizados, a qualquer negociação das nossas riquezas, vamos sem nenhum poder. Cortaram-nos a crista, o galo já não canta, agora eles apertam aqui e acolá, depois dizem faz lá isto e aquilo para eu te dar estas “migalhas”, para o teu povo não morrer de fome. Quantos escândalos andam na Europa?

D&F – Está a assumir que a culpa é das potências imperialistas ocidentais?

SM- Olha, estou a falar dos capitalistas ocidentais, que para fazerem a acumulação do capital precisam das riquezas de África, e eles não deixam que África explore as suas riquezas a seu favor. Quando descobrem que tens gás e tu dizes: ‘explorem e os subprodutos ficam aqui no meu país’, não aceitam, dizem: ‘não vale a pena investir’. O carvão e o alumínio idem. O alumínio, que produzimos aqui em Beluluane, por exemplo, não tem nenhum timbre “Made in Mozambique”, mas quando vai à Austrália, entra em fábricas onde é transformado e recebe o timbre de “Made in Austrália”. É assim como funciona o capitalismo selvagem dos nossos dias. Mesmo para você comprar uma tonelada de alumínio ali é um problema, porque eles não deixam, porque a ideia é tudo sair a bruto para alimentar as indústrias deles lá. Portanto, sempre vão ser culpados, porque são eles que trouxeram a palavra corrupção.  

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