Estigmatização retarda o tratamento e controlo da epilepsia no país


“A epilepsia não é transmissível” – Neurologista

 

A epilepsia é uma doença caracterizada por crises convulsivas repetidas causadas por mau funcionamento cerebral, devido à descarga eléctrica anormal, de duração e intensidade variável. As crises vão desde episódios de curta duração e praticamente imperceptíveis até longos períodos de agitação vigorosa. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), em países em desenvolvimento, como Moçambique, 75% das pessoas que vivem com epilepsia não recebem tratamento adequado. No nosso país, a epilepsia é a primeira causa de procura nos serviços de psiquiatria e de consultas de neurologia.

 Texto: Lídia Cossa

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 50 milhões de pessoas no mundo sofrem de epilepsia, uma desordem crónica no cérebro, que causa convulsões e pode afectar pessoas de todas as idades.

Segundo Deise Catamo Vaza, residente do segundo ano de Neurologia do Hospital Central de Maputo (HCM), a epilepsia é um transtorno cerebral, em que a pessoa tem convulsões, que acontecem quando há rompimento de uma das células dentro do cérebro.

Tal como explicou, a epilepsia pode ser de causa idiopática, quando é de origem genética, mas também pode ser por uma causa estrutural, quando é uma doença que a mãe teve durante a gravidez ou no momento do parto, se a criança tiver sofrido, pode adquirir problemas no cérebro, e a pessoa ficar epiléptica.

Para além dessas duas causas, a fonte explicou que a epilepsia pode aparecer depois de uma infecção no cérebro ou depois de um Acidente Vascular Cerebral (AVC) ou mesmo depois de um traumatismo.

As características das convulsões variam, dependendo da área do cérebro na qual o distúrbio começa e como se propaga. Por isso os sintomas temporários podem causar perda de consciência, movimentos convulsivos (tremores involuntários do corpo), incontinência urinária e fecal (perder urina e fezes), mordedura da língua e espumar pela boca.

Mas, segundo nossa entrevistada, a epilepsia pode ocorrer sem convulsões, podendo o paciente apresentar: olhar parado, não conseguir responder durante um período, deixar cair objectos sem se aperceber.

 


“Tratamento de epilepsia é dos mais complexos”

 

Segundo Deise Vaz, o tratamento da epilepsia tem sido complicado, tendo em conta que as pessoas ficam mais nas comunidades e dificilmente vão ao hospital.

“É muito comum ficarem a tratar a epilepsia com o ‘remédio de lua’, mas é importante que as pessoas se dirijam ao hospital, fazer-se o diagnóstico correcto, porque a convulsão pode aparecer não só na epilepsia, mas por uma outra doença ou num outro momento em que o cérebro está a sofrer, por isso que é importante fazer o diagnóstico correcto da epilepsia e consultar um neurologista para melhor tratamento”, explicou.

Apesar de não ter em grandes quantidades, o HCM fornece alguns medicamentos para epilépticos, mas a fonte adverte para que o doente tome uma dose correcta que o médico receita.

“Nós damos alguns anti-epilépticos, como a Fenitoína, a Carbamazepina, Fenobarbital e é sempre importante tomar na dose que o médico recomenda, porque, muitas vezes, o paciente vai trocando o medicamento, vai tomando da maneira como ele se sente mais cómodo, e isso não é bom, porque todo o medicamento tem tempo de vida, e se nós damos de oito em oito horas é importante que o paciente tome assim, porque depois de oito horas o medicamento desaparece no sangue e há risco de convulsão”, sustentou.

 “Há cuidados que devem ser observados num epiléptico. Um epiléptico não pode conduzir, até ficar pelo menos um a dois anos sem crise, e o médico  autorizar-lhe a fazê-lo, não pode ficar perto de rios, piscinas, porque pode ter uma convulsão e afogar-se, não pode ficar em edifícios muito altos, perto do lume, perto de objectos cortantes, porque pode ter uma convulsão e ser perigoso”, alertou.

Segundo Deise Vaz, perante uma pessoa que está a ter crises convulsivas, é necessário manter a calma e tranquilizar quem esteja por perto, colocar a pessoa deitada de lado ou de barriga para baixo a fim de facilitar a respiração e prevenir a aspiração (engolir) de secreções e vómito; afastar objectos duros ou cortantes e desapertar as roupas em torno do pescoço e do peito.

“Não pode dar de beber nem de comer nessa altura, pelo perigo de os líquidos/alimentos seguirem as vias respiratórias e matarem, eventualmente, o doente; pôr um pano ou pau na boca do doente, para evitar que morda a língua; logo que o ataque epiléptico termina, levar o doente à unidade sanitária mais próxima, para receber tratamento. A epilepsia não é transmissível, por isso, ninguém deve ter medo de prestar ajuda a um epiléptico”, destacou.

Estigmatização retarda o tratamento e controlo da doença

A epilepsia é conhecida em muitos pontos do país como “doença da lua” e, não raras vezes, é associada a questões do obscurantismo e, em muitos pontos do país, acredita-se que o tratamento para a doença está na medicina tradicional.

De acordo com a especialista, a forma como a sociedade olha para a doença faz com que haja barreiras no diagnóstico e tratamento da doença, daí que o combate ao estigma contra as pessoas epilépticas continua a ser uma das grandes lutas.

Em 2014, o Ministério da Saúde, em parceria com a Organização Mundial da Saúde, iniciou o Programa Nacional de Luta contra a Epilepsia, nas províncias de Maputo, Niassa, Nampula, Zambézia, Sofala e Gaza, com o objectivo principal de garantir um tratamento de baixo custo às pessoas que sofrem da doença.

A epilepsia tem tratamento que permite o controlo dos ataques com medicação em cerca de 70 por cento dos casos, mas não tem cura. Em pessoas cuja medicação não responde aos ataques, pode-se considerar a hipótese de alterações na dieta ou cirurgia de neuro-estimulação.

Segundo a OMS: 25% dos casos de epilepsia podem ser prevenidos

Entre as causas da epilepsia, estão lesões no momento do nascimento, lesões cerebrais traumáticas, infecções cerebrais como meningite ou encefalite e acidente vascular cerebral. Estima-se que 25% dos casos dessa doença neurológica possam ser prevenidos.

Intervenções eficazes para prevenir o problema podem ser implementadas como parte de programas mais amplos de saúde pública. Entre esses programas, estão os serviços de saúde materna e neonatal, as áreas de controlo de doenças transmissíveis, de prevenção de lesões e de saúde cardiovascular.

Para a Organização Mundial da Saúde (OMS), a triagem de complicações na gravidez e a presença de assistentes de parto capacitados (as) para prevenir lesões no nascimento; a imunização contra a pneumonia e a meningite; os programas de controlo da malária em áreas endémicas; as iniciativas para reduzir lesões no trânsito, violência e quedas; e as intervenções na saúde e na comunidade para prevenir hipertensão, diabetes, obesidade e consumo de tabaco podem ser algumas medidas para a prevenção da epilepsia.

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