Igrejas cobram dízimo e oferendas via banco ou M-pesa

  • Crentes indignados após serem instruídos a fazer depósitos e transferências

 

Através do Decreto Presidencial n.º 11/2010, de 30 de Março, que estabelece o estado de emergência por razões de calamidade pública, devido ao Covid-19, entre várias coisas, esta medida, que vigora em todo o território nacional, proíbe a realização de eventos públicos e privados, incluindo cultos religiosos. Apesar do cancelamento de missas e do facto de esta pandemia estar a afectar a economia de muitas famílias, algumas igrejas continuam a obrigar os crentes a fazer ofertórios e dízimos, recorrendo, para tal, a meios electrónicos, como M-pesa, transferências ou depósitos bancários.

A pandemia do Covid-19, que já infectou mais de um milhão de pessoas e causou a morte de mais de 65 mil pessoas em todo o mundo, está a ter um impacto nefasto na economia global, devido às restrições impostas pelos Estados, que causaram a paralisação de alguns sectores de produção.

Em Moçambique, o impacto na economia é visível, e o sector privado já fala de prejuízos em milhões de dólares, só nestes primeiros meses do ano, o que poderá culminar com o encerramento de algumas empresas e colocar milhares de moçambicanos no olho da rua.

Neste momento, grande parte das famílias moçambicanas encontra-se desesperada em busca de recursos para garantir os suprimentos necessários para sobreviver durante este período de crise. Mas mesmo em período de grande sofrimento, em que grande parte dos moçambicanos perdeu ou viu reduzidas as suas fontes de renda, por causa dos impactos negativos desta doença na economia, algumas igrejas continuam a exigir de seus crentes o pagamento do dízimo.

Entre essas igrejas, destaca-se a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), que acaba de lançar um serviço de pagamento de dízimo via carteira electrónica móvel M-pesa, para que os crentes continuem a contribuir durante o período de vigência da quarentena ou isolamento social.

Num contexto de grande incerteza e desespero no seio dos crentes, em que a Igreja devia ser vista como o único refúgio, para além de dízimos, a conta do M-pesa da IURD serve para a canalização de outros “propósitos”, uma espécie de oferendas que devem ser dadas em diferentes “correntes da fé” em troca de bênçãos e prosperidade na vida financeira e espiritual.

Isso inclui os grandes contribuintes da igreja, através de correntes empresariais, como a Nação dos 318 e Fogueira Santa, onde são desafiados a fazer sacrifícios e propósitos, para em troca ver seus negócios prosperarem.

A boa nova foi anunciada há dias, e a IURD, nos seus espaços de antena na rádio e televisão, tem estado a apelar aos crentes para que semanalmente passem, pelo menos uma vez, ao lado da igreja, sem precisar necessariamente entrar.

As canalizações são feitas através do código de serviço 900226, em nome do cliente IURD – Igreja Universal do Reino de Deus, tal como mostram as instruções exibidas pela igreja nos seus cultos e pregações televisionadas.

Para confirmar a façanha, o Dossiers & Factos simulou uma operação de dízimo, através do M-pesa, no valor de mil meticais a favor do código de serviço 900226, e confirmou que aquele serviço estava mesmo disponível.

. Crentes da Igreja Velha Apostólica indignados com cobranças

 

Tida como uma das mais influentes e que congrega um número considerável de fiéis no país, sobretudo na zona sul, a Igreja Velha Apostólica em Moçambique chocou alguns crentes, na semana finda, por obrigar os fiéis a canalizarem o seu dízimo através de transferências bancárias.

Segundo apurou o Dossiers & Factos, a nova forma de canalização de dízimo naquela congregação foi comunicada aos crentes por via das lideranças da igreja, através de mensagens transmitidas verbalmente ou por telefone.

Alguns crentes ouvidos pelo Dossiers & Factos mostraram-se indignados com a situação, e não se revêem na decisão da liderança máxima daquela igreja, que, em vez de se preocupar com a calamidade humana que os moçambicanos e os fiéis daquela igreja em particular estão a atravessar, está preocupada em garantir a manutenção dos ofertórios.

“Estou escandalizado com a minha igreja. Exigir dízimo neste período de distanciamento social, a ponto de mobilizar os crentes a fazerem depósitos no banco e guardar os talões é desumano”, disse um dos crentes, através de uma rede social.

De resto, a IURD e a Igreja Velha Apostólica (OAC na sigla em inglês) não são as únicas congregações a cobrar dízimo e ofertórios neste período de distanciamento social. As outras fazem-no de forma menos escandalosa e sem chamar nenhuma atenção.

Para alguns sectores mais críticos, isso só prova o carácter “predador” de alguns homens à frente da Igreja de Cristo nos dias de hoje, que se preocupam em transformar a Igreja num “negócio” em vez de se sensibilizarem perante a catástrofe humana que o mundo está a atravessar.

A ganância de alguns ditos “homens de fé” é tanta que algumas igrejas, na cidade de Maputo, violaram a medida de emergência e celebraram missas públicas, colocando em risco a vida de milhares de pessoas. 

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