“Jogadores morrem desgraçados porque não aliam o futebol à caneta” – diz Bebé

·         “Meu estilo de vida não vale nem um terço do que eu fui para o futebol”

·         “Recebíamos pouco dinheiro, mas o futebol era muito lindo”

·         “Condição para ser jogador do Maxaquene é ir à escola”

Dentro do campo são verdadeiros artistas da bola, correm, driblam, defendem, marcam golos, enfim, fazem as pessoas vibrar. Nalguns casos, ganham muito dinheiro e fama, mas quando a carreira futebolística termina, alguns ficam “desgraçados” e passam necessidades básicas. Bebé, antigo jogador do Maxaquene e Ferroviário de Maputo, ou Matias Campira Chapanga, seu nome oficial, com passagem pela selecção nacional, diz que o estilo de vida que leva hoje não vale nem um terço do que ele foi para o futebol nacional. O antigo jogador afirma que jogadores moçambicanos ficam na “penúria” depois do fim da carreira, porque não aliam o futebol à escola. É por isso que, actualmente, nos tricolores, para fazer parte das camadas de formação, um dos requisitos é ir à escola.

Texto: Arão Nualane

O Jornal Dossiers & Factos encontrou Bebé no seu gabinete, no Clube de Desportos da Maxaquene, onde trabalha no Departamento de Formação e como treinador de futebol com nível “B” da CAF. Ele falou-nos da sua história no futebol, e teceu igualmente algumas opiniões sobre o perfil do jogador moçambicano do antigamente e actual.

Ao longo de sua vida como jogador, ganhou dinheiro e conheceu alguns pontos do planeta terra, graças ao “ópio do povo”, o “desporto rei”, neste caso o futebol. Afastado dos relvados há mais de uma década, conta que actualmente tem uma vida normal, contudo, diz que o estilo de vida que leva hoje não vai de acordo com aquilo que ele foi no futebol.

O antigo jogador do Maxaquene, Ferroviário de Maputo e da selecção nacional reconhece, no entanto, que a situação pode ter sido causada por culpa própria ou por uma questão de conjuntura do próprio país.

Perante esta situação, o nosso interlocutor considera que só pode lamentar, mas mesmo assim não deixa de dar soluções, pelo que tem uma ideia de criar uma instituição designada Associação Moçambicana para o Atleta (AMA), onde farão parte da mesma todos os atletas de diferentes modalidades.

Segundo Bebé, a intenção é que, após a carreira, seja possível perceber o que o atleta fez, o que não fez e como é que pode ser ajudado. No entender de Bebé, o jogador de futebol também é feito de carne e osso. Também tem suas ambições, daí que algumas vezes se esquece de planificar o futuro.

De acordo com a nossa fonte, as pessoas olham para o Bebé de ontem e dizem que era bom jogador, mas não se preocupam em saber o que tinha e o que não tinha. E diz mais, antigamente podia não ter 9.ª classe, mas o clube obrigava que fosse integrado na empresa patrocinadora. Quando deixasse de jogar, ficava na empresa como trabalhador.

“Os outros não conseguiam entrar porque depois as políticas mudaram, mas para que isso não aconteça com os jogadores actuais, é preciso fazer o que o Maxaquene faz. Por exemplo, por mais que a criança tenha ‘bons pés’, se não vai à escola, não joga no clube”, comentou a experiência implementada pelos tricolores, para num outro desenvolvimento dizer que a partir daí: “começamos a colmatar os erros do atleta, porque ele vê que tem ‘bons pés’, mas se não estuda, não vai fazer o que mais gosta”.

Na visão do antigo craque da bola, assim sendo, quando a pessoa chega aos seniores, a ideia de estudar não foge, e com a tecnologia que temos hoje, é fácil os jogadores estudarem.

Na percepção de Bebé, desta forma,  pode-se formar o jogador para o amanhã, o que ontem não existia, porque só te formavam para aquele momento e apenas para servir ao futebol, dentro do campo.

Adepto do Fer. Maputo com coração no Maxaquene

Bebé conta que a sua paixão pelo futebol começa desde miúdo, quando recebeu, como primeiro presente de seu pai, uma bola de futebol. Na altura, vivia em Catandica, província de Manica. Mais tarde, porque seu pai era militar, foi transferido para Maputo com a família, e passa a viver na zona do Museu, onde continua a jogar “balizinhas” nos passeios da capital.

Em 1984, junta-se a uma equipa treinada pelo falecido Bonifácio, que também era jogador do Maxaquene. Mas porque gostava muito de Joaquim João e Mabjaia, fugiu para o Ferroviário de Maputo, mas quando chega ao clube, nas escolas de jogadores e nos iniciados, o treinador, na altura Joaquim João, disse-lhe que era bom jogador, contudo, não contava com ele, tendo o dispensado por ser magro.

“Recordo-me que, uma vez, quando estava na selecção, onde era treinador-adjunto, recordei-lhe que me dispensou no Ferroviário. Ele disse que era mentira, mas tinha razão, passava muito tempo e já não se lembrava”, contou.

Dispensado no Ferroviário, a única solução era voltar ao Maxaquene, onde foi recebido sem problemas, na equipa de juvenis, pelo treinador Miguel Vaz, que hoje faz parte da comissão de gestão do clube. Foi quem o formou como homem e como jogador. Foi até aos juniores com Miguel Vaz e fazia também jogos na equipa dos seniores.

“Quando faço 19 anos de idade, já jogava a titular na equipa sénior, onde substitui Lázaro, que jogava a líbero e passou a jogar do lado direito. Eu passei a fazer dupla com o falecido Rui Jonas” recordou, para de seguida avançar que jogou no Maxaquene de 1985 a 1995, mas porque não se entendeu com a direcção do clube, em questões contratuais, porque exigiu o que os tricolores diziam que não tinham.

O presidente do clube, nessa altura, era Nuro Americano, e acabou dizendo: “que fiquem com o clube, eu vou arranjar outro sítio”. Foi quando, em 1995, vou jogar no Ferroviário de Maputo, na altura treinado por Arnaldo Salvado”, onde afirma que a integração foi boa.

O nosso interlocutor disse ao Dossiers & Factos que estava habituado a ser titularíssimo no Maxaquene, e no Ferroviário teve que ir trabalhar para conquistar um lugar, porque havia um “esquadrão” de bons jogadores. Jogou dois anos e ganhou dois campeonatos. Participou na primeira Liga dos Campeões Africanos, onde a equipa locomotiva foi até às meias-finais.

Fumo foi um carrasco para Bebé

O antigo jogador afiançou que ao longo da sua carreira defrontou muitos jogadores, mas, quando fosse para defrontar o jogador do Ferroviário de Maputo Carlos Xavier Tembe, conhecido por Fumo, ficava sem sono e a pensar como podia parar as investidas do adversário de ocasião.

Do ponto de vista de Bebé, Fumo tinha um feitio e uma maneira de jogar em que o adversário tinha dificuldades de pará-lo. Preenchia quase todo o campo e dificilmente parava, isto é, estava sempre em movimento.

Comentando sobre a não progressão no futebol internacional, Bebé “abriu o livro” nos seguintes termos: “No tempo em que jogámos, com a política do desporto e do país era difícil sair de Moçambique para jogar no estrangeiro.

Recebíamos pouco dinheiro, mas o futebol era muito lindo

Durante a entrevista, Bebé fez uma comparação entre o tempo em que estava no activo e momento actual, e foi categórico ao dizer que o que mudou são questões financeiras, uma vez que o que recebiam não era muito, mas talvez se ajustava àquela época.

Aliás, Bebé considera que naquela altura recebiam pouco dinheiro, mas o futebol era muito lindo, por isso as pessoas não se importavam de perder um almoço em casa e sair cedo para ir ao campo assistir ao futebol.

Já hoje, segundo Bebé, o cenário mudou um bocadinho, porque o jogador moçambicano vai jogar porque quer apenas “agradar” o bolso.

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