Kigali: Uma cidade que desmonta teoria de que “estamos a governar só há 44 anos” (I)

A “ASPAS” DO EDITOR

Por: Reginaldo Tchambule

“Estamos a governar só há 44 anos”. “Moçambicanos fizeram mais do que os colonos em 500 anos”; “Estamos a crescer paulatinamente, mas não se pode fazer tudo, porque estamos a governar há poucos anos”, são alguns chavões que fazem os prazeres de alguns retóricos do sistema, quando são confrontados com o subdesenvolvimento e a precariedade de infra-estruturas socioeconómicas a que estão votados os nossos centros urbanos, para não falar das zonas rurais, onde ainda existem comunidades que vivem de forma primitiva e o Governo chega gota a gota.

Cresci a ouvir tanto essa ideia que acabei me conformando com o estado das coisas, afinal, foi-me inculcada a teoria de que arrancamos o poder do colono só há 44 anos e não se pode fazer milagres, porque até os portugueses levaram 500 anos para construir Lourenço Marques e outras cidades que estamos a escangalhar.

Esta minha apatia durou até eu conhecer Kigali, capital do Ruanda, um país que há 25 anos entrou para a história mais sombria da humanidade, quando conheceu o massacre perpetrado por extremistas hutus contra tutsis e hutus moderados, entre 7 de Abril e 4 de Julho de 1994, causando a morte de mais de 250 mil pessoas, incluindo crianças. O país ficou completamente dilacerado.

Fui lá parar para uma capacitação de curta duração. Quando recebi o convite e ouvi o nome daquele país, a primeira imagem que me veio à mente foi a de uma nação dilacerada, à procura de reerguer-se do caos. Pensei em recusar, mas sou daquelas pessoas que não resistem à tentação de conhecer novos lugares, novas vivências, culturas e povos.

Partimos de Maputo, às 14:30 e até 21:00 horas já estávamos em Adis Abeba, para fazermos a ligação para Kigali. Quando eram cerca de 00:45, o Boeing 737 – 800 da Ethiopian Airlines beijava o solo de Ruanda. A nossa delegação era composta por cinco membros, e como era de se esperar, alguns de nós tinham malas despachadas, pelo que depois de cumpridas as formalidades com a Migração, fomos levantá-las e pusemo-nos em direcção à porta de saída do aeroporto, onde já nos esperava um táxi do hotel.

Nem sequer havíamos dado cinco passos, quando um agente da polícia corpulento nos pára e, em inglês, de forma gentil, pediu-nos que removéssemos o plástico aderente com o qual havíamos embrulhado as nossas malas. Pensámos que fosse uma rotina normal de inspecção, mas, para o nosso espanto, o agente nem sequer tocou nos nossos pertences, apenas mandou deitar todo e qualquer plástico que transportávamos, dentro da lata de lixo. Pedimos explicação ao taxista do hotel, e este revelou que aquela cidade era amiga do ambiente e que era plástico quase zero.

Ficámos abismados, mas espanto maior viríamos a ter do lado de fora. Um aeroporto super organizado, com parques bem ornamentado, como outros aeroportos, mas destacava-se pelo verde da relva e plantas bem cuidadas. Olhando a fundo, dava para ver que as ruas e estradas eram asfaltadas e respirava-se a um outro ar. – “A Namíbia também é assim, não é Reginaldo”- gritou uma colega, ao que acenei positivamente. Com o roncar do motor, o táxi pôs-se em movimento e começámos a galgar os primeiros metros de Kigali. Ficamos vislumbrados com a estrada bem organizada, com o separador central e as bermas verdes. Não havia lixo. Era tudo bem bonito.

– Acalmem-se! – disse eu aos meus colegas moçambicanos. Antes que algum deles dissesse alguma coisa, sentenciei: – Esta é a estrada do aeroporto e aquele ali – apontando para um mural que serve de barreira, pois a cidade foi construída sobre uma zona montanhosa – deve ser o muro da vergonha daqui. É África aqui, todas as cidades têm sempre uma via que dá uma boa impressão, mas à medida que fores entrando para o interior, descobres que é tudo igual, – rematei, todo convencido de que estava em mais uma das tantas cidades africanas que conheço, mas que não impressionam.

Os meus colegas, todos de Maputo, que conhecem a realidade que se esconde por detrás do imponente muro, o da vergonha, que serpenteia a zona limítrofe entre a via que parte do Aeroporto até à Praça dos Heróis e o empobrecido bairro de Mavalane, puseram-se de imediato a concordar comigo. Fiquei feliz por ter conseguido arrancar um consenso naquela que para mim era a mais iluminada conclusão. Todos que me conhecem sabem que antes de ter razão não desisto facilmente. Alguns até me chamam de confuso.

Voltando ao assunto, à medida que ia percorrendo os seis quilómetros que separam o Aeroporto Internacional de Kigali do Onomo Hotel, onde nos iríamos hospedar durante cinco curtos dias, a estrada que para mim era mero cartão postal para iludir quem chegasse de avião àquela cidade ia se encarregando de desmentir-me.

A cada desvio, vinha outra, cada uma mais bem tratada que a outra. A beleza da cidade tornava-se mais impressionante e, aos poucos, ia caindo a nossa fita, ao ponto de derreter a teimosia de um machangana como eu. Falando em mim, eu que era o que mais falava dentro do taxi, a dado momento recolhi o meu orgulho, embrulhei-o e comecei a elogiar o que os outros fazem. Ali, descobri que afinal há países e povos que são governados aqui em África. Ali, para mim, não importava se eram governados com mão de ferro por um ditador ao olhos do ocidente, o que importava é que havia resultados visíveis.

Tudo era verde, não se via nem sequer uma folha das abundantes árvores na via, pois o lixo por aquelas bandas não serve para ornamentar a cidade, como acontece no solo pátrio. O verde da relva e palmeiras do separador central da via eram como uma festa para poucos olhos de gente habituada a contemplar a imundice na sua cidade.

Estava estupefacto. Acabava de ver desmontada uma imagem de caos que construíra dentro do meu subconsciente. Para mim, a Ruanda possível, aquela que eu idealizava, era apenas a de um país mergulhado no caos, com uma cidade capital colonial já escangalhada como a nossa, com bairros de lata superpovoados, com mau ordenamento territorial, ruas mal cheirosas,  infiltração nos prédios, bairros de expansão sem infra-estruturação e um sistema de esgoto saturado.

O que eu encontrei em Kigali foi um outro conceito de cidade. Uma cidade feita na era dos governos africanos, mas que transpira um ambiente reconfortante, onde o verde beija o cimento e de forma harmónica entrelaçam os pilares de uma capital. Por lá, a Kigali que visitámos, chama-se cidade nova, porque também existe aquela que na sua língua oficial chamam de “Old City”, ou cidade velha, em português.

Que inveja! Nós nem a velha temos, aliás, resiste ao tempo, mas está escangalhada e não existe algum plano de construção de uma nova, tal como mostra o exemplo da Catembe, que foi talhada pelos grandes e pelos pequenos, e hoje não há ciência capaz de traçar a geometria de um ordenamento genuíno.

É o resultado das nossas ocupações e por culpa de um Estado que sempre chega tarde. Hoje, na Catembe, há bairros onde já não há espaço para inserir uma agulha, logo não há ruas, não há jardins, não há espaço para campo, nem nada.

Só resta desejar uma boa sorte ao veterano Eneas Comiche, que foi arrancado dos seus netos e do conforto do seu digno descanso de terceira idade, para tentar arrumar as coisas por aqui, e, quiçá, virá dele a iluminação para uma nova cidade, como a que os ruandeses construíram em 25 anos depois do genocídio que empurrara o país para um caos sem precedentes.

Enquanto para nós é impossível fazer tanto porque “estamos a governar só há apenas 44 anos”, os ruandeses, que não têm metade dos recursos naturais e vantagem geográfica que temos, conseguiram construir aquela que, para mim, é a mais linda cidade que os africanos uma vez construíram. Não tem edifícios super imponentes e nem torres como as de cidades como Durban ou Cape Town, na África do Sul, mas é de uma organização, limpeza e crescimento de se tirar o chapéu.

Confesso! Cheguei a sentir saudades do cheiro do lixo e do esgoto saturado, ao passar pelas artérias de Kigali, mas, para o meu (in)feliz acaso, por aquelas bandas o ar é outro. É pesado, para quem não está habituado a viver em regiões altas, mas respira-se ar fresco, do verde que tanto abunda naquela cidade. (Continua)

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