Kloro: “Difícil amar o outro quando tu não te amas”

 Kloro pretendia lançar outros dois projectos em 2019, mas foi traído pela Covid-19

 

Novembro de 2020 foi, nos últimos tempos, o período mais fecundo no que ao lançamento de álbums de rap (um dos elementos da cultura hip-hop) diz respeito. Nesse período, também saiu às ruas aquele que é, para muitos, o melhor disco do ano passado. “Revolução Cultural”, de Danilo Malele – Kloro nos meandros artísticos – foi lançado  no Museu da Mafalala, onde encontrámo-lo para falar de alguns detalhes do CD e do próprio artista, que se propõe promover uma “revolução cultural” por via de “intervenção pessoal”.

Texto: Amad Canda

Foto: Albino Mahumana

No dia 12 de Novembro de 2020 assinalou-se o 47º aniversário de uma cultura global – o hip-hop – intimamente ligada à revolução. Talvez por isso tenha sido o mês escolhido por Kloro para o lançamento do seu “Revolução Cultural”, num acto que teve lugar no mítico Bairro da Mafalala, cidade de Maputo.

Em tempos, dissera o rapper, numa entrevista ao “Mbenga”, que fazia música de “intervenção pessoal”. Nunca a afirmação foi posta em causa, mas, se calhar, também nunca houve um trabalho que reunisse tantas provas da sua veracidade quanto o segundo álbum de um dos esteios do extinto grupo “Trio Fam”. “Revolução Cultural” é um álbum extremamente reflexivo, uma característica que, embora o próprio rapper trate – e bem – de frisar que sempre a teve, nunca esteve tão evidenciada quanto agora, e essa constatação não parece ser só nossa. No twitter, entre as diversas reacções ao disco, houve quem assinalasse que “a separação dos ‘Trio Fam’ foi necessária, fiquei com o coração partido, mas agora conheço o verdadeiro Kloro”.

Mudar o indivíduo para mudar a sociedade

Ao contrário do que se pode pensar à partida, a “revolução cultural” de Killa – outro alter ego de Danilo Malele – não se cinge a “cultura musical”. Na verdade, o artista, que se descreve como “humanista”, pretende instigar, através de sua arte, mudanças nas formas de ser e de estar da sociedade e, para tal, recorre a aludida “intervenção pessoal”.

“A sociedade é feita por indivíduos, logo, se tu queres mudar a sociedade tens que mudar os indivíduos. Se queres fazer uma revolução cultural, tens que falar com as pessoas, eu ponho a responsabilidade da mudança social na pessoa, como quem diz: vai lá reflectir sobre seus comportamentos”, esclarece.

Kloro convida seus ouvintes a uma introspecção profunda, mas, qual tutor, não se exime de apresentar “caminhos orientadores” para tal exercício. Em uma das linhas mais célebres do disco, Killa avisa que “não existe amor próprio com medo de estar sozinho”. Trata-se de um recado para o ser humano, que, em regra, procura encontrar a felicidade em outras pessoas, uma situação que, de acordo com Kloro, não é a ideal.

“É muito difícil amares o outro quando tu não te amas. Nós, às vezes, procuramos, na amizade e no casamento, algo que vai compensar um vazio que nós temos”, anota o MC, para quem isto só revela que “nós temos medo de estar sozinhos” e, por consequência, “não estamos prontos para ir a uma relação”.

A última raiz do fracasso

As faixas do segundo trabalho discográfico de Kloro Killa –  o primeiro foi Xigumandzene, lançado há sensivelmente quatro anos – são dotadas de uma mensagem que induz a mudança de mentalidade. Escutar “revolução cultural” é um autêntico retiro e, ao mesmo tempo, uma terapia com forte carga motivacional. A música que dá nome ao disco é disso exemplo. Aqui, o rapper da IBS procura incentivar as pessoas a enfrentarem o medo, um “cobarde” que, na opinião de Kloro, é a “última raiz do fracasso”.

Preocupado em propor formas alternativas de pensar – pretensão detectável em quase todas as 12 faixas – Killa convida a todos a sintonizarem “a nossa tv”, assegurando que “aqui tu vês tudo em 3D”. Através desta televisão disfarçada de rimas, procura ajudar as pessoas a enxergarem para lá daquilo que o “sistema” – a todos os níveis – impõe. O exemplo disso é o verso “projectamos o paraíso para quando morrermos, mas ele já está aqui, nem é difícil compreendê-lo”, que sublinha a ideia de que a felicidade é o caminho, e não o destino.

Relação com Mafalala

O álbum “revolução cultural”, inteiramente produzido por El Puto, foi lançado no museu da Mafafala, um bairro histórico a que Kloro parece estar cada vez mais ligado, não fosse ele o primeiro músico do projecto “running from the urb”, uma iniciativa que visa chamar atenção para a necessidade de se valorizar o subúrbio.

“Nós tentamos aliar o lançamento do álbum ao projecto running from the urb”, disse o artista, que revela ter ficado apaixonado com as histórias do “primeiro subúrbio de Moçambique”.

“Revolução Cultural” conta com participação de artistas de renome, tais como Roberto Chitsondzo, Regina dos Santos, Walter Nascimento, Assa Matusse, Guto e Ubakka.

 

 

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