Leco Nkhululeko questiona “Ku-Txinga” no Avenida

 

O poeta, declamador e activista social moçambicano Leco Nkhululeko volta a “vasculhar” as raízes da moçambicanidade com uma nova performance. A obra intitulada “Ku-Txinga – o Retorno à Vida” é a proposta que se segue e será apresentada no dia 15 de Agosto, no Teatro Avenida, na cidade de Maputo.

Tal como no concerto anterior, este espectáculo contará com a participação especial da renomada escritora moçambicana Paulina Chiziane, mas juntam-se ao evento a Associação Cultural Waretwa e demais artistas, que farão a noite de quinta-feira singular.

De acordo com a leitura da antropóloga Sónia Seuane, esta peça sugere “uma viagem, com um olhar pragmático e atento a alguns fenómenos da vivência e cultura moçambicana”.

Depois do sucesso obtido com o bailado “Mulher da Noite – O Eterno Amor”, exibido em duas  sessões, – a segunda a pedido do público – Nkhululeko pretende, interpreta Seuane, ser mais ousado e crítico, ao abordar, sem ambiguidades nem insinuações, uma prática secular, cuja racionalidade de protecção e preservação da mulher viúva gira em torno do casamento desta com um dos parentes do seu finado esposo.

O levirato, descreve a antropóloga, é um fenómeno cultural existente em várias sociedades, principalmente nas patrilineares, onde o “preço da noiva” – mais conhecido no sul de Moçambique como lobolo – é valorizado e preservado até às últimas instâncias, ultrapassando até as barreiras que a morte impõe na dissolução de um casamento.

Contudo, com a emancipação das mulheres, que começam a perceber-se como autoras das suas próprias histórias e com o advento do HIV e SIDA, será esta prática ou ritual, se quisermos, ainda considerada um garante do sistema de segurança social?

Será interessante, vaticina a académica, perceber com que roupagem e versos Nkhululeko trará este tema tão profundo e polémico, aparentemente antigo, mas sempre actual.

Mas não é errado antever uma obra excepcional, dado o grande bailado que o poeta brindou aos seus seguidores, muitos, por sinal, em duas noites que o Avenida rompeu pelas costuras. E importa frisar que essa preocupação do artista em revisitar o nosso imaginário tradicional faz toda a diferença na construção poética moderna nacional, e mais ainda por fazer disso um momento de reflexão, ao transportar esses mitos para o palco e deixar que os expectadores tomem as suas ilações.

Nkhululeko assume-se, assim, como um poeta da palavra, mas também de causas, onde a tradição moçambicana ocupa um espaço de destaque na sua criação, e por via disso desmistifica uma série de pensamentos que, muitas vezes, são um atentado ao bem-estar comum e aos direitos humanos.

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