Mercado Estrela: Uma república à parte onde negócios “sujos” prosperam

Moradores das proximidades pedem paz

 

Estamos no bairro do Alto-Maé, um bairro histórico da cidade de Maputo, onde se localiza um dos mercados mais conhecidos da capital do país, o Estrela Vermelha. Lá ao fundo, vê-se uma multidão de pessoas que tomaram de assalto uma rua, o movimento é frenético e o ruído ensurdecedor. Vende-se quase tudo, desde “sucatas” a produtos novos, na caixa. Ali parece não haver lei que impera, por isso os moradores que vivem ao redor não têm dúvidas: o mercado deve sair, pois, no seu entender, propicia negócios sujos, e falam até de criação de gangues que actuam na cidade de Maputo.

Texto: Arão Nualane

Um estudo produzido pela Universidade Eduardo Mondlane (UEM), com o título: “Mercado como Território Social”, feito em 2012, mostra que, em Moçambique, os dados oficiais indicam que o sector informal emprega a maior parte da população economicamente activa.

Entre os vários mercados informais da capital do país, um em particular se destaca. É descrito como um local com condições para a colocação de produtos roubados e criação de quadrilhas de crimes. A lei e ordem são definidos pelos mais de 15 mil citadinos que diariamente frequentam o local.

A título de exemplo, em 2019, registou-se uma grande confusão, quando três supostos agentes da Polícia da República de Moçambique (PRM) foram ao Mercado Estrela Vermelha com um mandado de captura de um suposto ladrão de celulares.

Naquele dia, o aparecimento dos homens da lei e ordem não foi do agrado dos vendedores, que se prontificaram a ajudar o amigo, para que não fosse levado pela Polícia, um comportamento que gerou confusão e obrigou os agentes a disparar vários tiros, que culminaram com o baleamento de um jovem e de um elemento da corporação. Até hoje, ninguém sabe explicar de onde veio a arma que baleou o agente.

Com este tipo de situações que caracterizam o mercado, a equipa do Jornal Dossiers & Factos decidiu viver de perto o ambiente, e, num dia quente, em que os termómetros indicavam mais de 30 graus celsius, visitou alguns “sectores”.

À primeira vista, tudo aparenta tratar-se de negócios lícitos, que envolvem moçambicanos do norte, centro e sul do país. Aliás, até estrangeiros, como nigerianos, burundeses, malawianos dão “vida” ao negócio de venda de motorizadas, carros, telefones, electrodomésticos e seus assessórios, num mercado em que as mulheres só vendem comidas. Na verdade, o negócio de produtos de proveniência duvidosa é gerido por homens.

Penetrámos mercado adentro disfarçados de clientes, parámos numa banca de venda de acessórios de viaturas e dissemos ao dono, que na verdade ficamos a saber que não era dono, mas sim intermediário do negócio, que estávamos à procura de dois faróis da parte de frente de um Mazda Demio.

“Ouve-lá Katche alguém tem faróis de Mazda Demio da parte de frente?”, perguntou ao amigo vendedor que estava ao lado. Num piscar de olhos, o amigo respondeu que sim e vasculhou a “loja”, e trouxeram o que precisávamos, e vendiam cada farol ao preço de 3500 meticais.

Curiosamente, nenhum dos faróis eram novos, e um deles até vinha com matrícula de um carro gravada, o que deixa depreender que pode ter sido tirado de uma viatura, numa das artérias da cidade. Não tardou para ficarmos ladeados de jovens, cada um com a sua proposta para “txunar” o nosso suposto Demio.

Depois de algum esforço, conseguimos dali sair e dirigimo-nos à ala dos celulares. Aqui, a azáfama pela procura de clientes é grande, cada um usa o seu “marketing” e logo que entramos fomos segurados pela mão.

“Não se preocupem os meus celulares não são ‘quentes’ vêm da África do Sul e têm boa qualidade”, disse o angariador de clientes, que durante a interação ia nos mostrando os telefones e dizendo os respectivos preços. Ali, carece até de espaço para enfiar uma agulha. O que devia ser uma via, transformou-se num dos mais apertados mercados do país. Em cada banca atendiam três a quatro homens, cada um com o seu preço.

Mercado Estrela não é bem-vindo para os residentes

 

Curiosamente, durante a nossa ronda no local, não vimos nenhuma presença policial, e só depois de galgarmos algumas ruas é que nos deparamos com alguns agentes encostados a um muro, assediando alguns cidadãos.

A situação deixa agastados alguns moradores, que pedem a intervenção do Conselho Municipal de Maputo para a retirada do mercado, por entenderem que, para além dar um mau aspecto à cidade, fomenta a bandidagem.

Os nossos interlocutores dizem que os jovens que vendem no mercado, no fim do dia, “penduram-se” nos muros e fumam drogas, mas o mal não pára por aí. Vezes há em que, depois de furtar produtos, escondem-se nos seus quintais, o que lhes coloca em iminente perigo.

O cenário mais triste, segundo contam os moradores, acontece nas fexta-feiras, quando os “comerciantes” começam a beber de qualquer maneira nas bancas, situação que fomenta a delinquência de jovens.

Para os moradores, talvez esse tipo de comportamento é que precipitou para que as aulas do curso nocturno, na Escola Secundária Estrela Vermelha, fossem abolidas.

Mesmo de dia, conforme contam os moradores, as pessoas evitam estacionar os carros em qualquer lugar perto do mercado, sendo que algumas vezes recorrem ao parque da igreja ou da esquadra policial, porque quem abastece o mercado, geralmente, são jovens que desmontam acessórios de viaturas na rua.

Conselho Municipal de Maputo em “blackout”       

 

Por várias vezes, o Conselho Municipal de Maputo tentou a requalificação do mercado e retirada dos vendedores informais, mas debalde. A esse respeito, contactámos o Conselho Municipal de Maputo para confrontá-lo com a inquietação da população, e saber o que o fez recuar da intenção de requalificar o mercado.

Em contacto com o Dossiers & Factos, o Director do gabinete de Comunicação e Imagem do Município de Maputo, Mussa Momed, prometeu-nos colocar à fala com o director dos Mercados e Feiras, de nome Imídio, alegadamente porque o vereador da área estava ausente, mas sem sucesso, até ao fecho desta edição, não foi possível ouvir aquele dirigente, apesar de termos insistido com telefonemas, que foram ignorados por Mussa.

Inconformados, dirigimo-nos à recebedoria do Conselho Municipal de Maputo, com o intuito de expor o assunto directamente ao director de Mercados e Feiras. No local, a secretária foi anunciar a nossa presença ao director, mas, para a nossa surpresa, a resposta foi de que este havia se ausentado.

Mas como o contraditório para o jornal era importante, enviamos uma mensagem ao director sobre o que pretendíamos. A resposta dada foi a seguinte: “Não posso dizer nada ilustre, não posso dizer nada sem autorização do meu vereador de Desenvolvimento Económico Local. Agradecia que entrasse em contacto com o director de Comunicação, ele vai apresentar-lhe o vereador. Desculpa pelo transtorno”. 

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