Morremos também pelo pânico e falta de orientação

Texto de Serôdio Towo 

Faço as linhas deste artigo de opinião numa altura em que me encontro de cama e em isolamento domiciliar, por conta da infecção pelo vírus da Covid-19. Já passa uma semana e alguns dias desde que fui dado como positivo pelas autoridades de saúde, mas encontro-me doente há  já pouco mais de duas semanas.

Durante este período, convivendo com várias realidades, entre elas as mensagens e discursos cada vez mais alarmistas das autoridades sanitárias e de diferentes segmentos, incluindo políticas, chegando mesmo a resvalar para a esfera da discriminação involuntária.

Nos últimos dias, sobretudo a partir da data em que, de forma oportuna e tempestiva, o Presidente da República se dirigiu à nação para falar das medidas do Governo face ao recrudescimento de casos da Covid-19, tenho estado a detectar um novo fenómeno que se vem apoderando da sociedade moçambicana: o pânico.

Para mim, o pânico é uma espécie de nova variante do coronavírus em Moçambique, tão contagiosa quanto as outras variantes detectadas no Brasil, Inglaterra, Japão e na vizinha África do Sul. Grande parte das pessoas, senão todas, estão, de diferentes formas, infectadas  psicologicamente. Uns estão assintomáticos, mas existem aqueles que, pelo nível do trauma, não conseguem camuflar os sintomas (o medo, a apreensão).

As pessoas têm o vírus da Covid-19 na mente e, consequentemente, têm a morte também gravada na psique. Este fenómeno, patrocinado pelo aumento de casos, mas também por uma retórica fatalista, é, no meu entender, bastante perigoso para a sociedade.

Precisamos, por isso, de uma urgente mudança de abordagem na comunicação a todos os níveis, começando pelos pronunciamentos políticos, que devem, inevitavelmente, trazer discursos de esperança e de possível superação.

É importante que, nesta matéria da Covid-19, os cientistas continuem a pronunciar-se  e que tragam prováveis soluções ou alternativas, mas igualmente importante e urgente é haver comunicólogos capazes de dar orientações à sociedade, que, de certa forma, precisa, mais ainda nesta fase, de receber palavras de esperança.

No meu entender, as políticas de comunicação praticadas até ao momento contribuem bastante para a destruição do nosso tecido social. Fragilizam as mentes de muitos concidadãos. Sem surpresas, o efeito tem sido a redução progressiva da imunidade – sim, porque a nossa saúde psicológica afecta a física – e o consequente  o sentimento de dominação e derrota pela Covid-19.

Não se trata de vulgarizar a vida, que é, por assim dizer, o maior activo que temos. Trata-se, antes, de usar o fortíssimo poder da mente para remar contra as correntezas do medo, do pânico e da insegurança, restaurando a esperança de um futuro risonho.

Precisamos definir, e com máxima urgência, o destino que o país pretende atingir nesta guerra, e isso deve ser feito com serenidade, mesmo diante do difícil contexto marcado por mortes diárias, que, certamente, e para a infelicidade de todos, continuarão a acontecer.

Precisamos ouvir ou receber orientações estruturantes de como podemos nos reerguer, do ponto de vista moral. Como é que uma determinada empresa, por exemplo, cujas lideranças são infectadas e perdem a vida, pode reerguer-se e continuar a trilhar o caminho do progresso?

Que mensagens devem ser transmitidas a uma família que tem os pais e um dos filhos infectados, de forma a ultrapassar a traumatizante situação com o mínimo de sequelas psicológicas?

Como disse, não pretendo banalizar a vida, mas aceitar a realidade vai ajudar-nos a todos a evitar que a nação sucumba perante este inimigo invisível, numa altura em que tantos outros desafios demandam a nossa atenção. Atendendo e considerando que os níveis de contaminação atingiram a fase comunitária e em grande escala, é óbvio que os casos que acabam em mortes seriam igualmente elevados.

Este pormenor é ou deve ser determinante para a gestão dos ânimos e do pânico na sociedade. Precisamos filtrar o tipo de informação que recebemos. Todas as mensagens que destroem a esperança devem ser descartadas, porque também elas matam.

Não estou aqui a fazer apologia ao desleixo, mas entendo que, apesar dos dados que nos são apresentados, temos agora mais razões para estarmos esperançados do que antes, até porque, cedo ou tarde, a vacina chegará ao solo pátrio.

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