Namavi: onde “seres sobrenaturais” controlam a navegabilidade

No dia 20 de Julho, o país foi abalado pela trágica notícia da morte de mais de uma dezena de pessoas em Cabo Delgado, desta feita não vítimas de ataques terroristas, mas de um naufrágio. O acidente aconteceu na zona de Namavi, quando uma embarcação, denominada Mujaka, seguia em direcção à Ilha do Ibo, ida do porto de Pemba. Depoimentos que nos chegam de Cabo Delgado dão conta de que Namavi é uma zona controlada por “forças sobrenaturais”, às quais é preciso “dar alguma coisa” para garantir uma “passagem tranquila”.

A estória é sinistra e capaz de deixar até o mais corajoso dos seres com cabelos eriçados. Namavi, ou Nunnumwana para os locais, é conhecido como “ponte do diabo”, tal é o perigo que representa para quem navega por aquelas águas. Trata-se um mar aberto em que as ondas gigantes são uma constante, o que é suficiente para pôr qualquer um em sentido.

À isso, adicionam-se detalhes assombrosos. Segundo revelam nossas fontes naquela região, a zona está sob alçada de “seres sobrenaturais”, que, supostamente, ditam as condições de navegabilidade. O sucesso ou não de qualquer embarcação depende do bom humor das referidas “forças sobrenaturais”, que controlam aquelas águas como insurgentes controlam Mocímboa da Praia.

Assim, dizem nossas fontes, a única forma de garantir “águas mansas” é que os viajantes juntem algumas oferendas – essencialmente víveres e valores monetários – para que sejam atirados ao mar em plena viagem. “É uma forma de pedir bênção e protecção”, asseguram os locais.

Quando não observado este protocolo, as viagens tornam-se turbulentas, podendo, em certas ocasiões, resultar em mortes. As embarcações são “sacudidas” por todos os lados. As ondas gigantes vêm de frente e de trás, da esquerda e da direita, não deixam espaço para manobra.

Há, aliás, indicações de que a mesma embarcação que naufragou no dia 20 do mês corrente, passou por “maus bocados” em Junho último, tudo porque os viajantes – governantes e jornalistas que iam testemunhar a celebração dos 260 anos de elevação da Ilha do Ibo à categoria de vila – não quiseram oferecer holocaustos aos seres que governam aquelas águas.

“Passamos mal, ondas que atingiam três a quatro metros de altura quase que nos cobriam. Ficamos todos molhados, porque as gigantes ondas quebravam-se sobre “Mujaka (é assim que é conhecido o barco que naufragou)”, narra uma fonte que participou da referida viagem.

O mito por trás dos frequentes naufrágios na “ponte do diabo” é sobejamente conhecido pelos ilhéus, que procuram obedecer aos mandamentos. O problema coloca-se, sobretudo, quando os viajantes são forasteiros e, portanto, ignorantes das leis impostas pelos seres que dominam aquela porção marítima. É que, regra geral, a tripulação do Mujaka evita anunciar o “evangelho” aos visitantes, para não causar pânico.D&F

 

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