“Não se dá a devida importância ao cartoon no país” – Sérgio Zimba

O conceituado cartoonista moçambicano Sérgio Zimba diz que no país não se dá a devida importância ao cartoon, apesar de se reconhecer o seu impacto na sociedade.

Texto e fotos de Albino  Mahumana

Sempre que se vai ao encontro de uma lenda, aparece aquele pequeno frio na barriga, contudo, a simplicidade e espontaneidade de Sérgio Zimba tornaram a entrevista mais relaxada.

No seu estilo característico, Zimba foi tirando o que lhe vêm à alma, mostrando-se agastado com o facto de o cartoon ainda ser pouco valorizado no nosso país, o que pode ter alguma relação com o facto de haver um número reduzido de fazedores.

Considerado o maior cartoonista do país, o nosso interlocutor lamenta o facto de esse título não se reflectir nos seus bolsos e não vir com o devido reconhecimento, pois, infelizmente, a sua imagem não é usada para a promoção de campanhas publicitárias, para sensibilização, como por exemplo, para a prevenção da Covid-19, como acontece com os músicos.

“Não tenho nada contra os músicos, mas sinto que não me estão a dar o devido valor. Mesmo os empresários sabem que sou popular e gostam dos meus cartoons, mas nunca me convidam para fazer campanhas publicitárias para venderem os seus produtos”, sublinhou Zimba, alimentando, porém, a esperança de um dia despertarem nesse sentido.

“Sou um peixe na água quando faço cartoon”

Indo concretamente ao trabalho que o tornou célebre, Zimba descreve a sua arte como uma linguagem gráfica, através da qual retrata vários aspectos da vida em sociedade, usando a sátira para falar da vida das pessoas, criticar e elogiar coisas boas que ocorrem no dia-a-dia.

Para Zimba, o cartoon é um meio de intervenção social, e chega ao alcance de todas as pessoas, incluindo as que não sabem ler nem escrever, porque o desenho em si é um meio muito forte de comunicação.

À nossa Reportagem, Zimba avançou que não faz cartoon com o objectivo de ofender a quem quer seja, daí que até aqui ninguém o abordou para prestar contas por causa de um desenho que tenha feito.

“No cartoon, sinto-me um peixe na água, e tenho inspiração 24 horas por dia para criar. Não tenho nenhuma dificuldade para desenhar, tanto é que não preciso de fazer esforço, porque tenho talento, dom natural e qualidade que se aliam a um grande sentido de humor”, reconheceu.

O nosso entrevistado contou à nossa Reportagem que desde que começou a publicar, em 1990, os seus trabalhos sempre foram muito bem recebidos pelo público.

“As pessoas nutrem muito carinho por mim, seja na rua ou nas redes sociais, onde partilho o meu trabalho”, disse Zimba, para de seguida sustentar que todos os cartoons de sua autoria são iguais, gosta deles da mesma forma e chega mesmo a compará-los a filhos, porque, no seu entender, não existe um filho melhor que o outro para um pai.

No que tange ao material para fazer os trabalhos, afirma não ter nenhuma dificuldade, porque o mesmo é de fácil acesso.

Zimba prepara lançamento de mais um livro

Ao longo da entrevista, Zimba deixou claro que mais que dinheiro, a maior satisfação que tem como cartoonista é saber que o público acarinha e valoriza o trabalho que faz.

E para registar este momento, Zimba está na oficina a cozinhar mais um livro, mas preferiu não entrar em detalhes, por enquanto, mas tem uma certeza: será lançado ainda este ano, se tudo correr como o planificado.

No seu percurso, o artista lançou livros como “Riso pela Paz”, “Lágrimas de Riso”, “Mafenha”, “Ri Amor”, “As Camisinhas”, “Lei da Família” e “Introdução do Metical da Nova Família”.        

Ao longo da conversa, Zimba explicou que a palavra riso está na maior parte das suas obras, porque é cultor do riso e considera que a vida sem o riso seria um autêntico inferno, pois é das melhores terapias da vida.

Um pouco da biografia de Zimba

1963 é o ano em que veio ao mundo, em Moamba. Passou a  infância como  outros  meninos de sua época. Cresceu e viveu na vila de Ressano Garcia, onde fez o ensino primário, na Escola primária Sacadura Cabral de Ressano Garcia.

Jogou a bola  de farrapos (xingufo), berlindes, zotho, entre outras brincadeiras comuns  daquela época. Concluiu o ensino primário em 1975, depois foi estudar em Namaacha, e de lá passou  para Escola Secundária da Manyanga, em 1979.

Em 1981, ingressa na Direção Nacional de Migração, como inspector de Passaportes. Através do cartoon, colabora na página militar do Jornal Domingo. Em 1990, o Notícias convida-o para fazer parte dos seus quadros, como desenhador gráfico, mas também continuava a colaborar com o Jornal Domingo como cartoonista, onde tinha uma rubrica chamada “Coisas de Maputo”.

Ao longo da carreira, já teve a oportunidade de representar o país em vários eventos nacionais e internacionais, com destaque para o “Festival Internacional de Juventude”, em 1998, e Expo 98, em Portugal.

Na galeria, Zimba conta com o prémio de Melhor Cartoonista na Gala de Personalidades, organizada pela Companhia de Teatro GUNGU, nas edições de 2000 e 2003.

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