“Nossas Forças de Defesa e Segurança têm muitas insuficiências” – General Hama Thay

 

Conhecido como um dos melhores estrategas de guerra da Frente de Libertação de Moçambique, tendo sido preponderante para a vitória contra o colonialismo, o General António Hama Thay não esconde o seu desagrado perante o rumo que o conflito armado no norte do país está a tomar, devido ao que chama de insuficiências nas Forças de Defesa e Segurança (FDS), que, no seu entender, não têm capacidade de resposta e muito menos de identificação clara do inimigo. Só para se ter uma ideia, na semana finda, os insurgentes que aterrorizam Cabo Delgado, há mais de dois anos, “varreram” militares das Forças de Defesa e Segurança, forçaram a fuga em debandada de autoridades políticas e içaram bandeiras do Estado Islâmico nas sedes distritais de Mocímboa da Praia e Quissanga, em Cabo Delgado.

Texto: Reginaldo Tchambule

Desde Outubro de 2017, vários ramos das Forças de Defesa e Segurança têm estado incansavelmente a “perseguir’ os insurgentes que semeiam terror nalgumas regiões da província de Cabo Delgado, mas a sua acção parece não estar ao nível da ousadia e capacidade operativa dos insurgentes.

Apesar de o Governo ter montado um sistema impermeável para controlar a informação, semanalmente, têm sido noticiadas várias incursões daquele grupo de malfeitores, em Cabo Delgado, que quase sempre se têm saldado em inúmeros óbitos de pessoas decapitadas por insurgentes, para além de centenas de casas incendiadas e outros bens saqueados.

De quando em vez, as Forças de Defesa e Segurança têm sido emboscadas e atacadas nas suas bases, o que mostra a ousadia do grupo, tal como aconteceu em Dezembro, na Base de Marrere, onde centenas de militares foram massacradas por um grupo de insurgentes, que depois se apoderou de duas viaturas, fardamento e material bélico.

Foi o que aconteceu na semana passada, quando os insurgentes incapacitaram unidades militares e da Polícia dos distritos de Mocímboa da Praia e Quissanga, instalaram terror e assumiram o controlo por algumas horas, chegando ao ponto de içar sua bandeira.

Dado curioso é que nos dois casos, apesar de o Comando Geral da Polícia da República de Moçambique (PRM) ter se apressado a afiançar que já estavam no terreno elementos das Forças de Defesa e Segurança a perseguir os insurgentes, estes continuaram no controlo da situação, destruíram bens públicos e privados, até à altura em que entenderam que deviam abandonar o local sem nenhuma resistência, levando consigo bens pilhados.

Estranhamente, o grupo que tem como uma das principais marcas a decapitação e assassinatos a sangue frio foi ovacionado pela população, e através dos seus canais de propaganda, o grupo, que conta com o apoio de células terroristas internacionais, declarou ter libertado os dois distritos.

. Mas, (…) o que está a falhar?

Interpelado pelo Dossiers & Factos, há mais de dois meses, procurando perceber o que estaria a falhar para que, passados mais de dois anos, as FDS não tenham ainda conseguido acabar com a insurgência em Cabo Delgado, ou no mínimo conter as suas incursões, o General na Reserva António Hama Thay, um veterano da Luta de Libertação Nacional, que combateu lado a lado com Samora Machel, referiu que o aparente fracasso das operações das Forças de Defesa e Segurança se deve à falta de capacidade de resposta às investidas dos insurgentes.

Mas mais grave ainda, no seu entender, é a ineficácia da inteligência militar, que em mais de dois anos continua incapaz de identificar claramente o inimigo, infiltrar-se na teia dos insurgentes para melhor conhecê-lo, traçar seu perfil e a natureza do conflito, de forma a desenhar estratégias para eliminá-lo.

“Para a situação real actual, eu considero que a Segurança tem muitas insuficiências, porque não era suposto que, dois anos depois, nós não tivéssemos capacidade de resposta, de identificação clara da natureza e características do conflito, para prever as linhas de resposta, para o encerramento do conflito”, disse Hama Thay.

Segundo ele, é já chegado o momento de haver um trabalho de inteligência sério, para permitir o sucesso da operação. “Os quadros ligados à Defesa e Segurança devem fazer um esforço maior, do ponto de vista de aprimoramento dos métodos e recursos que eles têm para o combate, para garantir a segurança no centro e norte do país”, sublinhou.

. Não é de hoje a crítica de Hama Thay ao défice de informação e ineficiência do SISE

Não é a primeira vez que o general e veterano da Luta de Libertação Nacional António Hama Thay critica a actuação das Forças de Defesa e Segurança. Há cerca de um ano, chegou a dizer que há um défice do sistema de informação e inteligência, numa clara alusão à ineficiência do Serviço de Informação e Segurança do Estado (SISE).

No ano passado, falando numa palestra sobre a vida e obra de Eduardo Mondlane, dirigida aos estudantes do Instituto Superior de Ciências da Saúde, acabou sendo instado a fazer uma comparação entre o estilo de liderança de Eduardo Mondlane e Samora Machel com a dos líderes actuais.

Na sua intervenção, o responsável por uma pesquisa científica sobre a vida e obra de Samora Moisés Machel, com quem trabalhou por mais de 16 anos, sublinhou que o primeiro Presidente de Moçambique tinha uma visão muito ampla e controlo sobre os Serviços de Informação, por isso conseguia estar sempre no controlo da situação, mesmo nos momentos mais difíceis do país, algo que não acontece actualmente.

“Era um líder que movia todos, e nós o apoiávamos naquilo que fazia, mas também é preciso dizer que Samora dispunha de um bom aparato de informação. Hoje, há um défice no Sistema de Informação”, disse Hama Thay.

Aquele general aponta, por exemplo, que a situação dos ataques em Cabo Delgado, que está a ceifar vidas humanas e a causar enormes danos materiais, deve-se à falta de informação estratégica e à ineficiência do SISE, que hoje anda ocupado a fazer policiamento ideológico nas grandes cidades e mostra-se neutro no teatro das operações.

Para o General Hama Thay, não faz sentido que, passado mais de um ano, os serviços secretos não tenham informação detalhada sobre quem são os insurgentes, a sua proveniência e motivação.

 “Eu posso ilustrar isso: há um problema lá em Palma, já passa um ano (agora mais de dois), mas não temos informação sobre quem são, o que querem, o que é que se passa, qual é o prazo dessa situação. Então há essas deficiências que vão surgindo com o curso dos acontecimentos”, lamentou.

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