“Nossas Forças de Defesa e Segurança têm muitas insuficiências” – General Hama Thay

“Não temos capacidade de resposta e identificação clara do inimigo”

 

Conhecido como um dos melhores estrategas de guerra da Frente de Libertação de Moçambique, tendo sido preponderante para a vitória contra o colonialismo, o General António Hama Thay não esconde o seu desagrado perante o rumo que o conflito armado no norte do país está a tomar, devido ao que chama de insuficiências nas Forças de Defesa e Segurança (FDS), que, no seu entender, não têm capacidade de resposta e muito menos de identificação clara do inimigo.

Texto: Reginaldo Tchambule

Desde Outubro de 2017, vários ramos das Forças de Defesa e Segurança têm estado incansavelmente a perseguir os insurgentes que semeiam terror nalgumas regiões da província de Cabo Delgado, mas a sua acção parece não estar ao nível da ousadia e capacidade operativa dos insurgentes.

Apesar de o Governo ter montado um sistema impermeável para controlar a informação, semanalmente, têm sido noticiadas várias incursões daquele grupo de malfeitores, em Cabo Delgado, que quase sempre têm se saldado em inúmeros óbitos de pessoas decapitadas por insurgentes, para além de centenas de casas incendiadas e outros bens saqueados.

De quando em vez, as Forças de Defesa e Segurança têm sido emboscadas e atacadas nas suas bases, o que mostra a ousadia do grupo, tal como aconteceu em Dezembro, na base de Marrere, onde centenas de militares foram massacradas por um grupo de insurgentes, que depois se apoderou de duas viaturas, fardamento e material bélico.

Interpelado pelo Dossiers & Factos, na passada quarta-feira, na Praça da Independência, depois da tomada de posse do Presidente da República, para se pronunciar em torno do discurso do PR, Filipe Nyusi, Hama Thay elogiou o sermão, as linhas de força e as prioridades do Governo para os próximos cinco anos, mas, no seu entender, “é preciso acrescer o elemento segurança e paz, que são fundamentais para que todo o sonho seja exequível”.

Questionámo-lo sobre o que estará a falhar para que, passados mais de dois anos, as FDS não tenham ainda conseguido acabar com a insurgência em Cabo Delgado, e o General António Hama Thay, um veterano da Luta de Libertação Nacional, que combateu lado a lado com Samora Machel, referiu que o aparente fracasso das operações das Forças de Defesa e Segurança se deve à falta de capacidade de resposta às investidas dos insurgentes.

Mas mais grave ainda, no seu entender, é a ineficácia da inteligência militar, que em mais de dois anos continua incapaz de identificar claramente o inimigo, traçar seu perfil e a natureza do conflito, de forma a desenhar estratégias para elimina-lo.

“Para a situação real actual, eu considero que a Segurança tem muitas insuficiências, porque não era suposto que, dois anos depois, nós não tivéssemos capacidade de resposta, de identificação clara da natureza e características do conflito, para prever as linhas de resposta, para o encerramento do conflito”, disse Hama Thay.

Segundo ele, é já chegado o momento de haver um trabalho de inteligência sério, para permitir o sucesso da operação. “Os quadros ligados à Defesa e Segurança devem fazer um esforço maior, do ponto de vista de aprimoramento dos métodos e recursos que eles têm para o combate, para garantir a segurança no centro e norte do país”, sublinhou.

Não é de hoje a crítica ao défice de informação e ineficiência do SISE

Não é a primeira vez que o general e veterano da Luta de Libertação Nacional António Hama Thay critica a actuação das Forças de Defesa e Segurança. Há cerca de um ano, chegou a dizer que há um défice do sistema de informação e inteligência, numa clara alusão à ineficiência do Serviço de Informação e Segurança do Estado (SISE).

No ano passado, falando numa palestra sobre a vida e obra de Eduardo Mondlane, dirigida aos estudantes do Instituto Superior de Ciências da Saúde, acabou sendo instado a fazer uma comparação entre o estilo de liderança de Eduardo Mondlane e Samora Machel com a dos líderes actuais.

Na sua intervenção, o responsável por uma pesquisa científica sobre a vida e obra de Samora Moisés Machel, com quem trabalhou por mais de 16 anos, sublinhou que o primeiro Presidente de Moçambique tinha uma visão muito ampla e controlo sobre os serviços de informação, por isso conseguia estar sempre no controlo da situação, mesmo nos momentos mais difíceis do país, algo que não acontece actualmente.

“Era um líder que movia todos, e nós o apoiávamos naquilo que fazia, mas também é preciso dizer que Samora dispunha de um bom aparato de informação. Hoje, há um défice no Sistema de Informação”, disse Hama Thay.

Aquele general aponta, por exemplo, que a situação dos ataques em Cabo Delgado, que está a ceifar vidas humanas e causar enormes danos materiais, deve-se à falta de informação estratégica e à ineficiência do SISE.

Para o General Hama Thay, não faz sentido que, passado mais de um ano, os serviços secretos não tenham informação detalhada sobre quem são os insurgentes, a sua proveniência e motivação.

“Eu posso ilustrar isso: há um problema lá em Palma, já passa um ano, mas não temos informação sobre quem são, o que querem, o que é que se passa, qual é o prazo dessa situação. Então há essas deficiências que vão surgindo com o curso dos acontecimentos”, lamentou.

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