EDITORIAL 364: Nossos dirigentes fazem de contas que estão a trabalhar

É como se fosse uma regra de jogo. Arriscamo-nos a afirmar que, para além das autoridades da Saúde, que procuram, mesmo sem meios, trabalhar incansavelmente na matéria da Covid-19, e as nossas Forças de Defesa e Segurança, que continuam a lutar, apesar das derrotas sofridas no passado em Cabo Delgado, nenhuma instituição está a carburar tal como se esperava até esta altura.

Vários responsáveis de diferentes sectores, sobretudo aqueles que têm a questão política pela frente, estão a trabalhar no mundo do faz de contas. Escrevemos, nesta mesma página, há semanas, que o país estava parado, desde o ano passado, um pouco antes da campanha eleitoral que culminou com a realização das eleições gerais. Isso parece não ser verdade, mas é um facto. Quer os ministérios quer os governos distritais, autarquias municipais e os respectivos conselhos provinciais, estes recentemente constituídos, nada fazem.

Não precisamos de uma lupa para tirar estas conclusões, basta, para tal, olhar para cada uma destas instituições, começando pelos ministérios, que ainda lutam em formar os quadros do novo executivo, com os ministros, na sua maioria, ainda a tentarem adquirir residências ou reabilitá-las, procurando formas de como obter dinheiro para equipar as suas residências oficiais ao seu gosto, havendo até casos de alguns que estão a exagerar em termos de despesas no apetrechamento das casas, mas sem, no entanto, terem começado a fazer algo palpável em termos de acções que se esperam deles.

Nos governos distritais, pouco ou quase que nada está a acontecer ou a ser feito, por falta de orçamento, com o agravante de que até se pensa em prováveis mudanças de administradores distritais, com a entrada em vigor de novos governadores e secretários de Estado, ora instituídos pela complexa e quase falhada Lei de Descentralização.

No entanto, ao nível dos governos provinciais, onde ainda há uma luta, devido à falta de clareza sobre quem é quem entre os dois galos na mesma capoeira (governador eleito e secretário de Estado nomeado).

As direcções provinciais também andam, na sua maioria, sem rumo e seus directores estão como baratas tontas. Ainda neste âmbito das direcções provinciais, há províncias, como Maputo, por exemplo, que os directores provinciais cessaram funções há bastante tempo, por força da Lei de Descentralização, mas, como se isso não bastasse, os chefes de departamentos também cessaram funções já passa muito tempo, o que significa que, de facto, nada se passa em termos de exercício de funções nas instituições públicas.

Aliás, temos a situação das autarquias municipais e as respectivas vilas, que têm presidentes eleitos e que se esperava que estivessem a funcionar a todo gás para o desenvolvimento das respectivas áreas de jurisdição. Na realidade, nada está a acontecer, porque também, tal como outras tantas instituições, a exemplo das que acima fizemos referência, ainda não receberam o orçamento, que deve descer do nível central. Este factor faz com que haja muita falsa propaganda, sobretudo quando se usam os media como disseminadores deste “faz de conta que estamos a trabalhar”, quando, na verdade, nada se passa.

É lamentável que até este mês de Maio, a caminharmos para o sexto mês, ou seja, ao do meio do ano, nada ainda esteja ou tenha sido feito pelas instituições públicas. Aliás, até eles (dirigentes), acredita-se que estejam a “dar graças” à chegada da Covid-19, porque se ocupam com as campanhas de fabrico, recolha e distribuição de máscaras e as inaugurações dos tais descobertos túneis de desinfecção, apenas isso.

São justamente essas tarefas e actividades que eles conseguem realizar, não por falta de iniciativas, mas, diga-se, por exiguidade de fundos orçamentais para outras actividades.

Ora, caros compatriotas, o trabalho da campanha massiva de máscaras não precisa ser de um representante do Chefe do Estado num distrito, num ministério ou de um edil. Isso podia ser efectuado, sim senhores, pelas comunidades e diferentes organizações da sociedade civil, que melhor sabem fazer esse trabalho.

Aliás, se bem que o impacto das doenças é diferente, nunca vimos, por exemplo, administradores envolvidos em campanhas de vacinação contra a Poliomielite, Sarampo, ou mesmo a distribuir preservativos para a prevenção do HIV-SIDA. O Governo determina, orienta e procede ao lançamento oficial da campanha, e os diferentes sectores seguem em frente com a missão.

Mas, hoje em dia, nas televisões, na hora nobre, todos os canais mostram governadores, secretários de Estado, edis, ministros, empresários, todos eles na distribuição de máscaras e inauguração de túneis de desinfecção.

Atenção, não estamos a dizer que esta actividade é irrelevante, estamos, sim, a afirmar que esta não deve ser uma actividade que ocupe as agendas de todos os nossos dirigentes e políticos. Estas todas instituições possuem planos de actividades desenhados para este ano, que é de inicio dos cinco anos de governação. É isso que queremos ver sendo feito, ao invés de chamar a Imprensa para reportar o vosso trabalho de faz-de-conta. Ora, os senhores dirigentes não nos deixam mentir, querem, e sempre querem, aparecer nas telas das grandes televisões, para serem vistos como indivíduos  que algo fizeram, quando, na realidade, se trata de populismo, por falta de fundos.

No entanto, não fica bem, Senhor Presidente. Os dirigentes devem trabalhar e  deixar de se exibir.

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