Nyusi: um Presidente “ausente”

O segundo mandato de governação de Filipe Nyusi tem sido fértil em tragédias e outros acontecimentos que retardam o país. Só que, mais do que comprometer o crescimento económico, as guerras, ciclones, entre outros desastres, ceifam vidas e semeiam desespero no seio de um povo a que, bastas vezes, o próprio Chefe do Estado parece esquecer-se de dar, em tempo útil, o necessário alento, na sua qualidade de “pai” da nação. A isso se adiciona a demora na nomeação de titulares para cargos de relevo. O caso mais recente é o do posto de secretário de Estado em Cabo Delgado, que, até ao fecho desta edição, na manhã de sábado, ainda não estava preenchido, depois da exoneração de Armindo Ngunga, em 27 de Abril. 

É algo que já se vem tornando característico do actual Presidente da República. Salvo raras excepções, em momentos de grande tensão, quando mais se anseia pela voz de um líder, Filipe Nyusi “desaparece” do radar, transmitindo a ideia de alguma indiferença face ao sofrimento de um povo que, por sua vez, se sente “desamparado” pelo seu funcionário número um.Quando não “desaparece”, faz “desaparecer”, como se assistiu (pelo menos até sábado, 15 de Maio), em Cabo Delgado, onde a vaga de secretário de Estado ficou vaga por mais de 15 dias, depois da “remoção” de Armindo Ngunga para o cargo de Presidente do Conselho de Administração da Agência de Desenvolvimento Integrado do Norte (ADIN), em substituição de Armando Panguene.Não se percebe bem a pressa para exonerar Ngunga sem ideia de quem o poderia substituir, numa província que, nas actuais circunstâncias, devia merecer todas as atenções por parte do Estado moçambicano.O silêncio sobre PalmaAinda está bem vivo, na memória colectiva dos moçambicanos, o brutal ataque protagonizado pelos terroristas do Ansar al Sunnah, na vila sede do distrito de Palma, em 24 de Março último.A investida, há cerca de 10 quilómetros do projecto de exploração de gás liquefeito, liderado pela Total, na península de Afungi, gerou uma gigantesca onda de condenação dentro e fora de portas.“O Governo da Espanha manifesta a sua preocupação com a situação e segue de perto a evolução dos acontecimentos, em coordenação com as autoridades moçambicanas, tanto em Maputo como em Pemba; as Nações Unidas, a União Europeia e outros países membros”, lia-se num comunicado publicado pelos espanhóis na manhã de 25 de Março.Em 30 de Março, era a vez dos Estados Unidos e França emitirem suas mensagens de repúdio. “Condenamos os ataques terroristas na cidade de Palma, na província de Cabo Delgado, no norte de Moçambique. Estes ataques evidenciam uma completa falta de respeito para com o bem-estar e a segurança das populações que têm sofrido muitíssimo, devido aos métodos brutais e indiscriminados”, disse John Kirby, porta-voz do Pentágono (sede do Departamento de Defesa dos Estados Unidos da América), acrescentando: “estamos firmemente empenhados em trabalhar conjuntamente com o Governo de Moçambique para acabar com o terrorismo e a violência extrema e derrotar o Estado Islâmico em Moçambique”.A França, principal accionista da Total, condenou “veementemente os ataques terroristas perpetrados há vários dias, que tiraram a vida a vários civis”. À semelhança dos norte-americanos, também os franceses se colocaram à disposição para “estar ao lado de Moçambique na luta contra o terrorismo” e instaram os países da região a “mobilizarem-se”.Mensagens similares reproduziam-se em quase todos os quadrantes, mas, na Ponta Vermelha, estava instalado um silêncio tumular, o que gerou críticas por parte de certas franjas da sociedade.O movimento político Nova Democracia falava de um “Presidente demissionário” e da confirmação de que “temos ministros, mas não temos um governo”. “O vazio é total”, vincou a formação liderada por Salomão Muchanga.Igualmente preocupadas com o silêncio do Chefe do Estado, 18 organizações da sociedade civil divulgaram uma carta, através da qual exigiam que Filipe Nyusi informasse pessoalmente à Nação sobre o que sucedia em Palma. Perante a onda de críticas, o Partido Frelimo saiu em defesa do Comandante-Chefe das Forças de Defesa e Segurança. Falando à Lusa, o porta-voz Caifadine Manasse disse, na altura, que não era necessário que o PR falasse “todos os dias” sobre o que estava a acontecer em Palma, e que para isso estava o Ministério da Defesa Nacional.

Texto: Serôdio Towo e Amad Cand, Jornal Dossiers & Factos Ed 415

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