O se7e da Mulher

 

O Artista vivia sem a sua arte e os dias eram monótonos. Passavam à velocidade do mal, tal era o desgosto. Isolado do grande nada que o rodeava, vivia num constante monólogo. Debruçava-se em torno de tudo nestes colóquios. Era – ele próprio – seu confidente. Pudera, era seu único homólogo.

Bastas vezes desabafou sobre o que o incomodava. De seguida, acomodava-se sempre na esperança de ver algo diferente. Debalde, o mundo era só uma gigantesca sala de espelhos. A melancolia crescia a olhos vistos, visto que tudo parecia perder sentido.

Já não conseguia despertar os sentidos, fartos de experimentar sensações inócuas. A vida era isto. Um farto banquete insonso, que, vigorosamente, alimentava o Artista de insónia.

Na insónia sonhou e, em parcos dias, pôs tudo em marcha. Recobrou os sentidos e já distinguia o dia da noite. Sua mente criadora passou a viajar abessa, percorrendo vários estados, desde o líquido ao sólido. Solidificou a luz nocturna para atenuar a penumbra. Não tinha enxada, mas cultivou extensos campos, e abusando da cor de tseke, adornou a sua produção.

Qual Chinês, persistiu no labor, sem descanso, conferindo forma às suas ideias. Bipolar, era manso e feroz. E disso é reflexo a sua obra. A sua mais nobre obra surgiu no fim, investida de poderes faraónicos. Exausto, e com a mente cambaleando, cedeu, ao sé7imo dia, à tentação de descansar.

Augurava um sono tranquilo, mas um arrependimento “diarreico” deitou tudo por água abaixo quando accionou o autoclismo da sua consciência. Tinha feito tudo e tudo parecia nada.

A língua parecia, novamente, sequestrada pela cegueira e tudo que ingerisse era insonso. O olfacto seguia apuradíssimo, mas incapaz de detectar a fragrância das flores, porque inexistente. Era música sem melodia.

Inquieto, o Artista nada nas águas da sua imaginação. E a acção que imagina parece antídoto para o problema que constatara. Voltou a oficina e, reciclando o barro, sacramentou a mais esplendorosa criação. E assim atingiu o pico da inspiração. Não por acaso, sé7imo é o dia da solene celebração. É o símbolo da perfeição!

Amad Canda

 

 

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