Ossufo Momade vive no hotel e paga quase três milhões por mês

  • Sem incluir alimentação, transporte e outras mordomias, paga 97.930,00 meticais por dia
  • Em seis meses, já gastou mais de 17,627,400.00 meticais só com hospedagem

 

Desde a assinatura do Acordo de Cessação Definitiva das Hostilidades Militares, no dia 01 de Agosto de 2019, cinco dias antes do Acordo de Paz de Maputo, o presidente da Renamo, Ossufo Momade, vive numa das mais prestigiadas estâncias turísticas da capital do país, o Montebelo Indy Maputo Congress Hotel, numa casa VIP que custa por dia 97.930,00 meticais, o que totaliza quase três milhões de meticais por mês, sem incluir alimentação e outras mordomias.

É o presidente de um partido da oposição de um dos países mais pobres do mundo, onde a maioria vive com menos de meio dólar por dia, a gastar quase 100 mil meticais, ou seja, mais de mil dólares por dia, com o pagamento de despesas de um hotel.

Segundo uma investigação do Dossiers & Factos, o presidente do maior partido da oposição, Ossufo Momade, eleito há mais de um ano em substituição do histórico líder daquele partido, Afonso Dhlakama, vive no hotel há mais de seis meses, numa vivenda VIP bastante vigiada, no interior do Montebelo Indy.

Ossufo Momade está hospedado na casa n.º 19, uma moradia VIP bastante luxuosa, com direito a tudo, onde já esteve hospedado por alguns dias o falecido líder da Renamo. Aliás, segundo apurou o Dossiers & Factos, Momade dorme no mesmo quarto que era usado pelo histórico líder.

O Indy Village tem apenas uma única casa VIP, e, ao que apurámos, Ossufo Momade ocupou a casa por tempo indeterminado. Custando quase cem mil meticais por dia, o inquilino daquela moradia, de três quartos, uma sala ampla, uma cozinha e mini-bar, tem direito à Internet, pequeno almoço e serviços de limpeza, das 06:00 às 16:00 horas.

Numa entrevista recente à DW, o porta-voz da Renamo, José Manteigas, confirmou que Ossufo Momade vive no hotel, desde que saiu da serra da Gorongosa, onde tinha ido residir após a morte de Afonso Dhlakama, em Maio de 2018.

Sem revelar a origem de qualquer tipo de ameaça, Manteigas alegou questões de segurança, para justificar a decisão do seu líder de passar a residir numa estância hoteleira e pagar quase 100 mil meticais por dia.

“Ele vive numa estância turística, aqui na cidade de Maputo. Isto resulta das negociações com a mediação da comunidade internacional. Por uma questão de segurança do próprio presidente, as partes das negociações decidiram que devia ficar numa estância hoteleira até que se criem condições de habitação com a devida segurança”, esclarece o porta-voz.

Segundo Manteigas, as contas de Ossufo Momade na referida estância são pagas pela comunidade internacional, ou seja, o grupo de contacto, mas não entrou em detalhes sobre quanto dinheiro o seu partido recebe para suprir o total das despesas com as mordomias do seu presidente, incluindo a remuneração dos seguranças que garantem a protecção, 24 horas, no hotel.

Enquanto esbanja no hotel, falta subsídios para seguranças

Enquanto Ossufo Momade esbanja dinheiro em mordomias no hotel, membros do seu partido a vários níveis, com destaque para seguranças da sua guarda pessoal queixam-se de recorrentes atrasos no pagamento de salários e disponibilização de subsídios.

Recorde-se que, recentemente, a sede do maior partido da oposição, a Renamo, na capital do país, viveu momentos de alguma agitação, quando Membros pertencentes à segurança da Renamo decidiram amotinar-se, a 30 de Janeiro, nas instalações do partido com intuito de pedir explicações detalhadas à volta da interrupção da canalização de subsídio a que têm direito.

Em declarações à imprensa, na altura, José Manteigas, porta-voz do reconheceu o “barrulho” e explicou que não se tratava de corte ou interrupção, mas sim um atraso na canalização dos referidos subsídios que disse destinarem-se a “água e luz” a que homens pertencentes à guarda do partido têm mensalmente direito.

“O partido não conseguiu tempestivamente pagar subsídios de água e luz, mas é uma questão de atraso. E o partido está a organizar-se para poder pagar porque é um subsídio que os homens recebem mensalmente”, disse José Manteigas.

Nhongo e companhia só querem moageiras e camionetas

Ainda não é conhecida a lista completa das exigências da Junta Militar da Renamo que constam do documento enviado por aquele grupo ao Presidente da República, ao grupo de contacto e a algumas embaixadas, contudo, o Dossiers & Factos sabe que os guerrilheiros dirigidos por Mariano Nhongo pedem, entre outras coisas, uma pensão vitalícia, camionetas para transporte de mercadorias e moageiras, em troca da sua desmobilização.

Só para se ter uma ideia, os mais de 17 milhões que Ossufo Momade já gastou até agora, em mais de seis meses que vive no hotel, seriam suficientes para canalizar gás natural para mais de duas mil famílias. Aliás, foi o valor que o Governo e seus parceiros gastaram num projecto-piloto de distribuição de gás natural canalizado, nos distritos de Vilankulo, Inhassoro e Govuro, no norte da província de Inhambane.

Igualmente, aquele valor é suficiente para a construção de uma escola secundária pública com mais de sete salas de aulas, bloco administrativo e outros serviços adjacentes, num distrito, ou mesmo para a aquisição de pelo menos 15 tractores novos com as respectivas alfaias agrícolas para apoiar camponeses.

Tendo em conta as exigências dos antigos guerrilheiros da Renamo, da ala leal a Afonso Dhlakama, hoje considerados desertores, o que Ossufo Momade gastou em seis meses vivendo num hotel seria suficiente para comprar moageiras e distribuir por pelo menos 60 homens, para entregarem as armas e ir produzir.

Recorde-se que Mariano Nhongo, o rosto mais visível da Junta Militar, acusa Ossufo Momade de ser “traidor e corrupto”, por alegadamente ter aceitado ser comprado pela Frelimo, para violar o espírito dos Acordos de Paz celebrados pelo líder histórico do partido opositor Afonso Dhlakama, falecido em 2018.

A Junta Militar da Renamo, que tem protagonizado ataques armados há mais de seis meses, na região centro do país, exige a renegociação do processo de Desmilitarização, Desmobilização e Reintegração (DDR), alegadamente porque uma parte da força foi excluída. O barulho reside sobretudo no grupo dos que já não têm idade, nível académico ou capacidade física para ser reintegrados nas Forças de Defesa e Segurança, que alega que os benefícios acordados para a sua desmobilização não correspondem às suas necessidades.

Estará próximo de mamar os 71 milhões?

A revelação de que, afinal, Ossufo Momade, presidente de um partido de oposição de um dos países mais pobres do mundo, onde a maioria vive com menos de meio dólar por dia, gasta quase 100 mil meticais, ou seja, mais de mil dólares, por dia, com o pagamento de despesas de um hotel, veio reforçar a ideia de que este poderá estar próximo de quebrar um dos principais códigos de honra do falecido líder daquela formação política, Afonso Dhlakama, e assumir o cargo e as regalias inerentes à figura do segundo candidato mais votado.

Entretanto, a Renamo não assume nem descarta essa possibilidade. O estatuto de segundo mais votado foi aprovado no calor da tensão pós-eleitoral, logo depois das eleições de 2014, e confere a esta figura direitos e deveres, dos quais se destaca o privilégio de desfrutar, dentre várias regalias, de honras e precedência nos termos do Protocolo do Estado, para além de uma soberba remuneração.

O segundo mais votado tem ainda direito a possuir um gabinete de trabalho devidamente equipado, utilizar uma residência oficial, dispor de meio de transporte, beneficiar do direito de alienação de viaturas,   passaporte diplomático para si, seu cônjuge e filhos menores ou incapazes.

Também goza de um regime especial de protecção e segurança para salvaguardar a sua integridade física, beneficia de assistência médica e medicamentosa para si, cônjuge e filhos menores ou incapazes, e ainda de ajudas de custos, em caso de deslocação em missões que lhe sejam incumbidas pelo Presidente da República; ter pessoal de apoio para o gabinete de trabalho e residência; viajar em primeira classe, para além de ter um subsídio de reintegração, nos termos da lei.

Recorde-se que o encargo com este posto é de 71,6 milhões meticais anuais para os cofres do Estado, distribuídos da seguinte forma: 12.724.860,00 meticais para despesas de funcionamento; 12.500.000,00 meticais para bens e serviços; 898.890,00 meticais para transferências correntes; e 45.500.000,00 meticais para as despesas de investimento.

Sempre coerente, Afonso Dhlakama nunca aceitou este cargo, apesar da tentadora condição de que tinha o direito de fixar a remuneração e os subsídios correspondentes.

Há dois meses, o Dossiers & Factos ouviu o porta-voz da Renamo e do presidente daquele partido, José Manteigas, para saber se depois da tomada de posse dos deputados, Ossufo Momade iria também assumir o seu posto, conferido pelo Estatuto Especial de Segundo Mais Votado. Este não confirmou nem descartou essa possibilidade.

“Ainda é prematuro. Ainda não foi discutido ao nível do partido”, disse de forma repetida José Manteigas, uma posição reforçada por Ossufo Momade, dias depois, em declarações à DW, afiançando que tudo dependerá da decisão do seu partido.

“Em primeiro lugar, eu não sou o segundo mais votado, sou o primeiro mais votado. E, aliás, não é nenhuma oferta, é a vontade da população moçambicana ver Ossufo Momade a governar o país. Neste momento, ocupar o cargo de segundo lugar não é oferta do partido Frelimo, é aquilo que a lei está a prever. Agora, dizer se vou aceitar, isso vai depender do meu partido”, sublinhou Ossufo Momade.

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