Paga-se para tirar foto no Jardim Tunduro


“Uma medida que precisa ser debatida e eliminada” – cidadãos

 

É uma medida controversa, que já encontrou de surpresa muitos cidadãos nacionais. “É proibido tirar foto, ou seja, para tirar, tem que pagar ali na secretaria”, disse um agente da polícia municipal a um casal de jovens que aproveitavam o verde fresco do Jardim Tunduro, no centro da cidade de Maputo, para namorar. A advertência, algo inusitada, chamou a atenção da repórter do Dossiers & Factos que ali estava a repousar, ao que se aproximou para questionar por que é que o agente não proibiu ao grupo de cidadãos de raça branca, aparentemente estrangeiros, que, há poucos minutos, acabara de tirar uma série de fotos, sob o olhar do mesmo agente, e a resposta veio com uma dose de ameaça: “minha senhora, custa 150 meticais tirar foto aqui, não arranja problemas”.

Texto: Lídia Cossa

A resposta daquele agente, que fez questão de exaltar-se, não só pegou de surpresa a nossa repórter, como também a um grupo de curiosos que frequentava o local e não sabia da medida, até porque não existe nenhum sinal de proibição de captação de imagens.

Sem uma justificação aparentemente plausível, agentes da Polícia Municipal, que ficam no interior do Jardim, controlam qualquer tipo de movimentação de fotógrafos nacionais, e quando estes são encontrados a tirar fotografia ou mesmo a manusear a máquina, são remetidos à secretaria para pagamento de uma taxa de 150 meticais.

Cidadãos ouvidos pela nossa Reportagem repudiam esse tipo de comportamento por parte das autoridades municipais, pois, segundo eles, não faz sentido nenhum cobrar aos nacionais e isentar os estrangeiros, com o pretexto de serem turistas.

“Simplesmente não faz sentido, porque, se fosse proibido, então a entrada também devia ser com base numa credencial, mas a partir do momento em que é aberto ao público, não deve haver restrições, tirar fotos aqui dentro não é errado, por isso essa medida, para mim, é muito dura e devia ser eliminada”, comentou Maria da Graça.

 “Eu imagino o quão dolorido é um polícia moçambicano proibir a um moçambicano de tirar foto num jardim também de Moçambique, mas quando aparecem estrangeiros, deixa-lhes tirar. É, de facto, um assunto que precisa ser debatido e resolvido, porque, além de ser racismo, é também falta de moçambicanidade por parte dos que andam a proibir, deve-se eliminar essa mentalidade”, destacou.

Valor a pagar varia em função da vontade do agente

Outra pessoa que não compactua com essa medida é Anselmo, um jovem que tem frequentado muito o Jardim Tunduru, na companhia de sua namorada, e revela que já foi vítima da Polícia Municipal.

Contou que uma vez tentou registar momentos num espaço bonito e verde como o Jardim Tunduru, porém, foi sem sucesso, porque muito antes de tirar sequer uma foto, os polícias já estavam lá para exigir que pagasse uma taxa para tal acto.

“No meu caso,  disseram-me até que era para pagar 500 meticais, não sei, talvez porque era sábado, por isso queriam  aproveitar-se para extorquir-me. É uma medida muito chata. Todos os dias estão aqui para nos proibir de tirar fotos no nosso próprio Jardim, mas quando chegam brancos aqui nem lhes perguntam,  deixam-lhes fazer e desfazer, e nós que somos daqui não nos deixam, onde é que vamos então tirar as fotos? Tem que se acabar com essa coisa”, lamentou.

O jovem disse ainda que os polícias, além de proibir de tirar as fotos, ameaçam arrancar a máquina fotográfica, caso a pessoa se recuse a arrumá-la ou a pagar a taxa necessária.

“Tentei insistir, a pensar que me iam deixar tirar fotos, mas  ameaçaram-me, dizendo que iam levar minha máquina e nunca mais me devolver, isso é muito chato, as coisas não devem ser assim, é muito chato mesmo, nós queremos que se elimine essa medida”, disse.

Juliana Tembe disse que o que mais lhe inquieta é que, para além de nada justificar a cobrança daquela taxa, simplesmente dizem que é proibido e vão embora, sem que mostrem alguma placa de proibição ou algum dispositivo legal que sustente tal medida.

“Primeiro, aqui não tem nenhuma placa de proibição de fotografias, e também não justificam nada, só interpelam a pessoa e, por vezes, até nos assustam e dizem não se pode tirar fotos, quando perguntamos porquê, só dizem: ‘vai pagar credencial’. Isso não faz sentido nenhum, para qualquer medida, deve haver justificação”, reivindicou.

Município diz que nunca proibiu ninguém de tirar fotos no Tunduru

 

A nossa Reportagem foi ao escritório onde se paga a referida taxa para se ter a credencial para fazer as fotografias. Um dos funcionários que lá estava disse à nossa Reportagem que as taxas variam para cada caso. Casamento tem sua taxa, aniversário tem outra e assim sucessivamente, porém, o valor mínimo são 150 meticais.

Questionado sobre se jornalistas também deviam pagar alguma taxa, respondeu que não sabia, e que só o município poderia dar mais esclarecimentos.

Em conversa telefónica com a nossa Reportagem, o Conselho Municipal de Maputo desdramatizou, dizendo que não era proibido tirar fotos naquele jardim.

O Eng.º José James disse que nunca proibiram as pessoas de tirar fotos no interior do jardim, simplesmente chamam atenção para não pisar a relva. Segundo ele, só os fotógrafos oficiais é que pagam as taxas, que partem de 150 meticais. Para além desses, ninguém mais é proibido de tirar fotos.

Questionado sobre alguns que já foram proibidos de tirar fotos no interior do Jardim, a fonte disse que não tinha conhecimento, mas que iria confirmar com os polícias que guarnecem o jardim, para perceber o que aconteceu.

“Não é proibido tirar fotos, nem para nacionais, nem para os estrangeiros, o que se adverte é que as pessoas não pisem a relva. Os fotógrafos oficiais devem ter uma licença e pagar uma taxa, que parte dos 150 meticais, só isso”, garantiu.

O Jardim Tunduru foi desenhado em 1885, pelo famoso arquitecto paisagista britânico Thomas Honney, que se diz que chegou também a desenhar alguns jardins para o sultão da Turquia e para o rei da Grécia. A fundação daquele organismo tinha como objectivo a formação de um jardim e florestação do pântano da então vila de Lourenço Marques. Foi inaugurado oficialmente, após reabilitação, a 21 de Dezembro de 2015, por David Simango, na altura, presidente do Conselho Municipal de Maputo.

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