Para ganhar as eleições gerais este ano: Ossufo Momade rasga mandamento e estratégia de Dhlakama

  • Renamo nega coligar-se com outros partidos da oposição

Tendo em conta o nível de popularidade baixo do partido Frelimo, acossado pelo envolvimento de seus membros em escândalos de corrupção, com destaque para as dívidas ocultas, mas também pelo aparente vazio de ideias por parte do Governo actual, o falecido líder da Renamo, Afonso Dhlakama, foi traído pela morte, quando já havia selado alguns acordos com outras forças da oposição, no sentido de todos unirem-se em torno de um candidato único e uma só lista, para fazer face ao partido Frelimo e seu candidato nas eleições de Outubro. A informação é avançada por representantes de algumas forças políticas que acusam Ossufo Momade de ter rasgado o acordo.

A crise da dívida, o envolvimento de altas figuras da Frelimo nas dívidas ocultas, o aparente controlo partidário sobre os órgãos de justiça, que levou a uma letargia no esclarecimento deste escândalo, entre outros factores geraram um descontentamento generalizado dos moçambicanos e criaram um campo fértil para a oposição impor-se nas eleições gerais deste ano. Alguns sectores consideram que este é o ano em que Afonso Dhlakama chegaria à Ponta Vermelha.

No entanto, no dia 03 de Maio de 2018, perdeu a vida, vítima de doença, mas, quando estava em agonia, deixou três principais mandamentos: ser levado para o sepultamento na sua terra, ao lado de sua mãe; união entre os membros; e a necessidade de estes serem fortes. No entanto, aquele partido está, neste momento, a viver um momento conturbado, tanto a Renamo civil quanto a militar.

Desde que foi eleito como presidente do partido, Ossufo Momade tem vindo a tomar algumas decisões que originam fricções a nível interno. Naquilo que foi o seu grande acto, desde que tomou posse, afora o dossier “paz”, nomeou novos delegados distritais e provinciais, ignorando as aspirações das bases, facto que levou ao surgimento de uma onda de contestações nalguns pontos do país.

Mais recentemente, guerrilheiros da perdiz, espalhados por alguns pontos do país, denunciaram uma má gestão do processo de DDR e suposta detenção de oficiais da perdiz tidos como leais a Afonso Dhlakama. Este cenário fez com que uma das alas, liderada pelo general Nyongo, se rebelasse contra Ossufo Momade. Aliás, esses guerrilheiros ameaçaram não entregar as armas em sua posse.

Com a Renamo, tanto a militar quanto a política, dividida em alas, estava quebrado um dos principais mandamentos de Afonso Dhlakama, que, no leito da morte, pediu união, para tornar a oposição.

Ossufo Momade manda passear outros partidos da oposição 

Os partidos extraparlamentares vinham negociando directamente com falecido líder da Renamo, Afonso Dhlakama, desde 2016, e havia um acordo de princípios para que todos se unissem em torno de um único candidato, ou seja, no dia da votação haver um boletim de voto com dois rostos, um de Filipe Nyusi e outro de Afonso Dhlakama. Para a Assembleia da República e assembleias provinciais, idem. Haveria um boletim com dois símbolos, ou seja, da Frelimo e da Renamo e seus aliados.

Até o MDM estava disposto a entrar nesta empreitada. Aliás, já escrevemos neste Jornal que Daviz Simango escalou várias vezes a serra da Gorongosa para uma concertação nesse sentido, e já havia anunciado, sem aparente motivo, que não tinha intenção de candidatar-se este ano.

A experiência das intercalares em Nampula, onde a Renamo e o MDM se uniram na segunda volta e derrotaram a Frelimo, terá convencido Daviz Simango e Afonso Dhlakama de que a união de esforços poderia conduzir a oposição à vitória.

Esse entendimento começou a ser desenhado em 2017, na Cimeira dos Partidos Políticos Extra-parlamentares, realizada em Bilene. Foi lá onde se tomou esta decisão, onde cerca de 40 partidos políticos declararam que Afonso Dhlakama seria seu candidato único e que o símbolo da sua campanha seria a perdiz.

Foi lavrada uma declaração, enviada à Gorongosa, através do então chefe do gabinete de Afonso Dhlakama, Mateus Gabriel. “Ele disse-nos que o falecido presidente Dhlakama, quando recebeu o documento, chorou, e terá dito: “só agora é que o meu sobrinho e os outros partidos reconhecem que a minha causa é justa?” Depois agradeceu e mandou Mateus Gabriel para que nos informasse que a Renamo aceitava acolher a oposição numa única lista, aceitava o nosso apoio à sua candidatura e que a Renamo contava connosco na governação”, revela Sibindy.

Segundo ele, de Maio até Outubro de 2017, esperava-se que o presidente Dhlakama concluísse o processo de negociações, para poder estar livre para fazer política activa, e a primeira actividade que iria levar a cabo era receber os mais de 40 partidos políticos, para anunciar a aliança que haveria em torno de uma única lista.

Entretanto, parece que Dhlakama morreu com a sua vontade. Contra todas as expectativas, no dia 11 de Junho passado, a Renamo, através de seus representantes a nível central, recusou uma união de forças. Depois de três exaustivas sessões de trabalho com os partidos políticos, a resposta de Ossufo Momade e seus correligionários foi um categórico “não”.

“Eles disseram que só podem aceitar apoio a um único candidato, mas cada um devia avançar com sua própria lista. E ainda disseram ‘vão se inscrever’. Fomos excluídos por uma meia dúzia de pessoas que dirige a Renamo”, confirmou ao Dossiers & Factos Yaqub Sibindy, um dos representantes dos mais de 40 partidos políticos que haviam endossado o voto a Afonso Dhlakama e seu partido.

“Ossufo traiu os mandamentos de Dhlakama”

Para aquele grupo de partidos políticos, mais do que trair o movimento, Ossufo Momade está a rasgar os mandamentos de Afonso Dhlakama, e acusam-no de ter conseguido destruir aquilo que a Frelimo, em 40 anos, com armas, contra-inteligência e outras formas não conseguiu.

“Dhlakama morreu e a Frelimo conseguiu destruir o seu quartel-general, usando Ossufo Momade. Politicamente, destruiu o sonho dos moçambicanos de apoiar um único candidato”, acusa Sibindy.

É nesse sentido que, segundo ele, o seu partido PIMO, sentindo-se traído, decidiu não se inscrever, para mostrar seriedade, e não ser confundido com partidos que se inscrevem à procura de fundos da CNE.

Sibindy diz que não encontra outra explicação para aquele posicionamento da Renamo, a não ser a existência de membros da Frelimo camuflados em perdizes, para tomarem decisões que fragilizam a oposição.

“Ossufo Momade revela-se como uma perdiz a favor da maçaroca, age como membro da Frelimo, contra as expectativas de milhões de moçambicanos, que esperavam que Ossufo Momade seria o martelo para punir a Frelimo, num contexto em que os moçambicanos sentem na pele os impactos das dívidas ocultas e outros males cometidos por figuras ligadas ao partido no poder”, sublinha Sibindy, para quem Ossufo Momade e sua comissão política devem ter garantias de que terão seus interesses acomodados pela Frelimo.

Segundo ele, a Renamo actual está capturada. A Renamo de Afonso Dhlakama, na sua opinião, era revolucionária, e esta actual é comercial, que está lá para negociar ganhos individuais.

“Nunca houve nenhum acordo, nem mesmo com Dhlakama”

Contactado pelo Dossiers & Factos, o porta-voz da Renamo, José Manteigas, nega qualquer acordo prévio que a Renamo tenha estabelecido com forças políticas da oposição no sentido de todos unirem-se em torno de um único candidato e uma só lista. Segundo ele, não houve esse acordo, nem com Afonso Dhlakama, muito menos com Ossufo Momade.

“Posso lhe garantir que nenhum destes partidos negociou com o saudoso presidente Afonso Dhlakama, o que, de facto, aconteceu é que, a um dado momento, antes da morte do presidente, alguns desses partidos começaram a mostrar interesse em colaborar com a Renamo”, sublinha.

Manteigas esclarece que é na sequência disso que, no passado 11 de Junho, houve o último encontro com os partidos extra-parlamentares, na sede nacional da Renamo, a pedido daqueles, onde se terão proposto a apoiar a Renamo e o seu candidato, mas, em contrapartida, queriam entrar para as listas, para serem deputados da Assembleia da República e ocupar lugares cimeiros.

A Renamo recusou-se e deixou claro que aquele diálogo não visava coligação nenhuma. Entretanto, “se quiserem apoiar o candidato único, que é o da Renamo, mobilizem os seus membros para apoiar o candidato, mas não podem colocar como moeda de troca a acomodação de seus membros em lugares cimeiros. Então recomendamos que cada partido vá trabalhar em apoio ao nosso candidato, mas deve concorrer para a Assembleia da República individualmente”, sugeriu.

Segundo ele, apesar disso, a Renamo terá garantido que caso o seu candidato vença as eleições com o seu apoio, depois estudaria as formas de integração destes partidos políticos no xadrez de governação.

“O que nós estamos a recomendar aos partidos é que, para ganhar as eleições, é preciso ter membros e mobilizá-los para irem votar. Portanto, não se pode querer coligar sem ter membros. Vai se coligar como?”, questionou.

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