População de Matutuine vence braço de ferro contra White Pearl

Demolida vedação daquela instância turística que vedava acesso ao mar

Finalmente cumpriu-se a decisão do governador da província de Maputo, Raimundo Diomba, que, em socorro ao clamor da população do bairro da Ponta Mamoli, no distrito de Matutuíne, mandou demolir o muro de vedação de uma estância turística denominada White Pearl, que impedia, sem motivos aparentes, que os residentes locais e outros curiosos acedessem ao mar, onde, para além de aproveitar a brisa duma praia paradisíaca, a população dedica-se a pesca artesanal.

Texto: Lídia Cossa

Segundo acusa a população, o dono da “White Pearl”, um cidadão nacional simplesmente identificado por Florival, conseguiu autorização do Governo para explorar 30 hectares de terra naquela zona turística, mas ao arrepio das normas apoderou-se de mais 270, totalizando 300 hectares.

Consta que o empresário anexou ilegalmente aquele espaço, através de algumas manobras em conluio com algumas pessoas de má-fé, sendo que o seu plano era a construção de uma pista de aterragem de aeronaves para os seus clientes.

Arrogante, como que a indiciar ter alguma protecção das elites, ao longo deste tempo todo foi fazendo das suas, chegando ao ponto de vedar o acesso da população, não só às terras onde sempre praticaram as suas actividades do dia-a-dia, como também ao mar.

Segundo os populares, este nunca se pré-dispôs a um diálogo pacífico com a população, e todas as vezes em que foi convocado mostrou indisponibilidade, alegadamente porque estava de luto por ter perdido o seu pai, o que para a população era uma forma de ganhar tempo.

Esta situação fazia com que os banhistas, artesões, pescadores e a população no geral fossem obrigados a percorrer mais de dois quilómetros para chegar à praia, uma distância que em condições normais devia ser de menos que 500 metros.

A população local sentia-se desprezada porque há cinco anos que tentava aceder aos seus terrenos, inclusive os cemitérios familiares que foram engolidos pela vedação.

Denunciam ainda que as campas onde jazem os seus ente queridos foram vandalizadas, sob o olhar cúmplice das autoridades do governo local.

Desesperada e cansada de assistir passiva aquela situação, a população denunciou aquela irregularidade ao governador da província de Maputo, Raimundo Diomba, na sua recente visita ao distrito, tendo o governante instruído o responsável daquela estância a corrigir a situação.

Estranhamente, com a mesma arrogância que sempre o caracterizou, o dono da estância turística desautorizou a ordem do governante, o que culminou com um despacho obrigando o uso da força para demolir o muro em causa.

Na última sexta-feira (24 de Maio), com recurso a uma pá escavadora, a população da Ponta Mamoli testemunhou o fim do reinado de Florival, mas teve que pedir a protecção dos agentes da Polícia porque o dono da White Pearl oferecia resistência.

Entretanto, a população esteve no local munida de martelos e outro tipo de instrumentos contundentes para acabar com o muro e aplaudir a ordem do Governo de restituir a legalidade naquele local público.

Aliás, o gerente da White Pearl tentou em vão desafiar as autoridades, deixando a sua viatura defronte do portão, enquanto os guardas tentavam colocar-se defronte do muro de vedação, mas os agentes da Polícia da República de Moçambique (PRM) conseguiram amainar os ânimos, e o muro, este, acabou indo por baixo.

Pescadores celebram

A par da agricultura, a pesca é uma das principais actividades de rendimento e de subsistência naquele ponto do país, e, como era de esperar, a interdição da passagem naquele espaço afectava grandemente aquela actividade.

Um pescador local, identificado por José Nhaca, disse ao Dossiers & Factos que a praia havia sido transformada numa “outra República”, pois “os seguranças não nos deixavam passar, por vezes exigiam a identificação, o que criava constrangimentos para exercermos a nossa actividade pesqueira”.

A nossa reportagem teve o testemunho de muito mais pessoas que dependem da actividade pesqueira para sobreviver e que enfrentavam barreiras, devido a acção dos responsáveis daquela estância turística. Hoje, após a queda do muro, o sentimento é de alegria, mas também de algum medo por temer represálias.

O régulo da Ponta Mamoli, Samuel Tembe, aproveitou a ocasião para lembrar que foi enxovalhado pela população, que acreditava que era cúmplice de Florival, o dono da “White Pearl”.

Com o desfecho do caso favorável à população, o régulo sente-se neste momento aliviado: “Eu respondia por coisas que não sei, quando vejo que as autoridades fizeram alguma coisa por nós fico muito feliz”.

Entretanto, os funcionários da White Pearl não quiseram tecer nenhum comentário a respeito do assunto.

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