Nomeação de Jaime Neto é uma estratégia para Nyusi controlar a Defesa

 

Pode constituir surpresa para muitos a nomeação de Jaime Neto para ministro da Defesa, mas não passa de um déjà vu para os mais atentos. Isso mesmo. A história repetiu-se. É a segunda vez que um civil assume a pasta da Defesa, o primeiro havia sido o próprio Presidente da República, Filipe Nyusi, na altura, confiado ao cargo pelo então PR, Armando Guebuza, como estratégia para controlar um ministério que muito bem conhecia.

Criou alguma estranheza a substituição de Atanásio Ntumuke, um general e veterano da Luta de Libertação Nacional, por Jaime Neto, um outsider e civil, mas, para os mais chegados em matérias de Defesa, tudo não passa de uma estratégia do Presidente Nyusi para reforçar o poder do Estado-Maior-General, numa altura em que o país enfrenta dois grandes desafios, nomeadamente os ataques armados no centro do país e as insurgências em Cabo Delgado.

Mas é neste último teatro de operações que este esquema se encaixa. Filipe Nyusi foi buscar um civil, dada a sua preocupação com o conflito em Cabo Delgado, e pretende usar o truque de Armando Guebuza, que durante o seu segundo mandato também confiou a pasta da Defesa a um civil (neste caso, Filipe Nyusi), para controlá-lo melhor. 

É que, por ser militar, e pelo seu carácter, o General Ntumuke geriu a instituição dentro da disciplina militar e até intrometeu-se no Estado-Maior-General, o centro das operações militares do Estado, facto que interferia no sucesso das operações.

Ntumuke mostrou-se incapaz de encontrar solução para o problema da insurgência em Cabo Delgado, onde, em dois anos, as Forças de Defesa e Segurança somaram vários fracassos no teatro das operações, chegando ao ponto de serem atacadas em suas bases pelos insurgentes, resultando em várias baixas, como aconteceu em Marrere.

Por essa razão, preocupado com o cenário em Cabo Delgado, numa altura em que há sinais de o grupo estar a alastrar-se para outros distritos, como é o caso de Mueda, sua terra natal, Nyusi tenciona controlar o ministério, que ele bem conhece, e deixar as operações, como é de se esperar, ao cargo do Estado-Maior-General, cuja acção era, por vezes, ofuscada pela intromissão de Ntumuke.

Na sua primeira aparição, depois de tomar posse, Jaime Neto deixou claro que a sua missão principal é resgatar a confiança e o moral da tropa, numa altura em que já havia um clima de descontentamento, devido à falta de condições e às dificuldades operativas, dada a complexidade do conflito.

Na sua visita ao Quartel General, onde está baseado o Estado-Maior General, defendeu soluções urgentes e sustentáveis, e pediu aos moçambicanos para para confiarem na capacidade das Forças de Defesa e Segurança para o combate aos ataques armados nas regiões centro e norte de Moçambique.

“Para mim, devem confiar nas Forças de Defesa e Segurança, que estão a trabalhar a todo gás para restabelecer a tranquilidade nessas duas regiões. Com o andar do tempo, [os moçambicanos] vão sabendo do trabalho e das operações que estão sendo feitas [no centro e norte], mas, pelo que nos foi dito, estamos satisfeitos”, frisou Jaime Neto.

Insurgentes ganham terreno em Cabo Delgado

Nos últimos meses, sobretudo depois do massacre de Marrere, os insurgentes em Cabo Delgado têm vindo a ganhar terreno e a estender as suas acções para mais distritos. Só para se ter uma ideia, nessas primeiras semanas, já foram registados mais de uma dezena de ataques.

Na semana passada, os insurgentes atacaram a aldeia de Manica, no posto administrativo de Mucojo, onde existe uma posição das FDS, mas não fizeram nada para impedir que os malfeitores disparassem para dispersar a população e depois incendiar suas palhotas, bens e produtos alimentares. Aqui mataram uma pessoa, feriram mais outra e raptaram duas mulheres.

Antes, os insurgentes haviam atacado, pela terceira vez, a aldeia de Chitunda, no posto administrativo com mesmo nome, em Muidumbe, Cabo Delgado, onde surpreenderam a comunidade com disparos para o ar, e perante o pânico da população, incendiaram casas e saquearam bens.

No passado dia 16 de Janeiro, os insurgentes atacaram uma viatura e mataram três pessoas, em Mocímboa da Praia, na aldeia de Roma, a poucos quilómetros da sede do posto administrativo de Díaca, em Mocímboa da Praia. Neste incidente, três pessoas foram atingidas mortalmente: o motorista, seu ajudante e mais um passageiro.

Mais do que essa série de incidentes, nas últimas semanas, o conflito em Cabo Delgado ganhou outros contornos preocupantes, pois, pela primeira vez, registou-se um ataque num território do distrito de Mueda, o que mostra que os malfeitores podem estar a alastrar-se.

Mais  Destaques

Scroll to top
Skip to content