Rede Mulheres Jovens e Líderes escolheu o dia da mulher moçambicana para reflectir

 

Não há motivos para celebrar o dia 7 de Abril! Foi assim como organizações da sociedade civil junto com uma boa parte das mulheres moçambicanas passou o dia consagrado a mulher moçambicana, o dia 7 de Abril, celebrado semana finda. Com esse grito, as mulheres pretendem chamar a atenção do país, desde os governantes até a sociedade no geral que não se pode celebrar enquanto há mulheres a morrer e a perder seus parentes em Cabo Delgado vítimas dos insurgentes que actuam naquela província já há quatro anos.

Texto: Lídia Cossa

 A campanha não há motivos para celebrar o dia 7 de Abril, Cabo Delgado também é Moçambique foi lançada pela Rede Mulheres Jovens e Líderes de Moçambique cujo o objectivo é sensibilizar as diferentes classes da sociedade a olhar com mais sensibilidade para a situação de Cabo Delgado e não tratarem aquela província de forma isolada como se de outro país fosse.

A campanha foi lançada dois dias antes do dia da mulher moçambicana (7 de Abril) e segundo a Rede, teve muita aceitação, vários segmentos da sociedade, não só mulheres aderiram a causa e se solidarizaram com Cabo Delgado.

Tal como explicou Milagre Quivela membro activa da Rede Mulheres Jovens e Líderes de Moçambique e delegada provincial em Cabo Delgado, a campanha lançada pela Rede Mulheres, Jovens e Líderes de Moçambique tem como lema “não temos motivos para comemorar o dia 7 de Abril enquanto choramos por Cabo Delgado”, e visa demonstrar a sensibilidade, o amor, a atenção que as mulheres moçambicanas tem com as mulheres que estão nesse momento em Cabo Delgado numa situação de dor e tristeza.

“Seria imoral, seria insensível da nossa parte com sorriso no rosto, nos fazermos a estrada, marcharmos com alegria sendo que boa parte das mulheres que também são moçambicanas encontram-se em luto, a chorar pelos seus filhos e pelos seus maridos, portanto, não festejamos o dia 7 porque não tínhamos motivos para tal. Entretanto, aproveitamos esse dia para reflectir o que nós podemos fazer por essas mulheres”, disse.

Apesar de não terem celebrado o 7 de Abril deste ano como os outros, as mulheres reconhecem que não é possível se apagar o dia da mulher moçambicana da história do país.

“Não estamos a dizer que vamos apagar o dia 7 da história de Moçambique, é impossível, por ser um dia histórico que se comemora e se enaltece a figura da mulher, mas devemos nos sensibilizar com aquelas mulheres que morrem e perdem seus filhos e seus maridos diariamente em Cabo Delgado”, defendeu.

Segundo a Rede Mulheres Jovens e Líderes de Moçambique não foi possível celebrar o dia 7 sendo que metade da população de Cabo Delgado esta deslocada, e o numero de deslocados ascende já a um milhão e maioritariamente são mulheres e crianças.

“Não podíamos celebrar o dia 7 sendo que Palma, Mocimboa, Nangade, Muidumbe, Macomia e outros pontos foram assaltados pelos terroristas, com um numero não especificado de mulheres raptadas, escravizadas e estupradas”, destacou.

Para além disso, aquela organização falou do facto de os relatórios da conta geral do estado, os balanços governamentais, e os informes sectoriais não proverem informações de direito publico transversal na optica de género e nem agregam dados para demonstrar como as realidades tem impactado de forma diferenciada sobre as mulheres e homens. “Nem sequer esclarecem quantas mulheres beneficiaram-se dos fundos de resposta a Covid-19 e das ajudas aos deslocados no centro e norte”.

“Não podíamos celebrar o dia 7 sendo que milhares de mulheres morrem de fome em Muecate, Monapo, Nacala Velha, Chibuto, Chicuacuala, e outros distritos de Tete, Manica e Cabo Delgado chegando a consumir capim para sobreviver. Não podíamos celebrar o dia 7 sendo que os locais de culto estiveram fechados na semana santa e mesmo a ressurreição de Cristo foi comemorada de forma individual”, explicou.

“Ao celebrar o dia estaríamos a ignorar a nossa realidade, estaríamos a tapar os ouvidos para os nossos irmãos e fazer festa porque faz parte da nossa história, não podemos ser insensíveis. A celebração do dia 7 simplesmente não se enquadrava neste ano, não fazia nenhum sentido, Cabo Delgado também é Moçambique”, sublinhou.

A Rede, para além de sensibilizar a sociedade a olhar para a situação de Cabo Delgado com mais sensibilidade, também mobiliza para doações, “aquela capulana que era para amarar no dia 7 e fazer selfies manda para aquela mulher em Cabo Delgado que precisa mais do que você, vamos nos solidarizar com as nossas irmãs”.

Na mesma ocasião, Milagre Quivela falou dos avanços na luta pela igualdade de género, apesar de ainda estar muito aquém do desejado.

“Conseguimos ver que houve vários avanços significativos na inclusão da mulher em vários cargos de poder. Hoje conseguimos ver mulheres a exercerem cargos importantíssimos que nos anos passados não se imaginava que teríamos mulheres a exercerem esses cargos. Mas ainda há desafios, o que acontece é que há uma representatividade para cumprir a agenda, mas o que esta a faltar é as mulheres tomarem lugares de poder, estarem inclusas na tomada de decisões, é isso que falta. E também o engajamento da mulher no processo da busca de paz é ainda um desafio para Moçambique, vemos muitas mulheres na Assembleia da República, nos ministérios mas na tomada de decisão é muito raro ver essas mulheres”, disse.

A Rede Mulheres Jovens e Líderes de Moçambique tem por objectivo ampliar as vozes das mulheres e raparigas, de forma a trazer propostas, soluções para todas aquelas questões que merecem a atenção da sociedade e sobretudo quando se trata da questão de direitos das próprias mulheres. A Rede existe há dois anos e é composta por jovens dos 18 aos 35 anos de idade.

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