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REVELAÇÕES DE SIMIÃO PONGUANE, EM GRANDE ENTREVISTA

“Não se podia passar imagem de Dhlakama na TVE”

 

Na presente edição, e ainda no contexto da caminhada rumo aos 10 anos da criação do Dossiers & Factos, resgatamos uma entrevista que nos foi concedida por um dos maiores jornalistas nacionais: Simião Ponguane. Natural do distrito de Massinga, na província de Inhambane, Ponguane – um dos rostos da Televisão de Moçambique – é dono de um percurso invejável, que inclui colaboração com a Rádio Renascença (Portugal) e a Rádio France Internacional (França), tendo também ocupado cargos de chefia ao nível da televisão pública. Exímio entrevistador, foi colocado numa posição a que não está habituado e o resultado foi uma conversa animada sobre a sua vida e a vida político-social do país. Acompanhe a entrevista, publicada em Junho de 2013, na edição número 35.

Por: Serôdio Towo

Dossiers & Factos (D&F): De forma resumida, pode falar-nos da sua infância e como é que aparece no mundo do jornalismo?

Simião Ponguane (SP) – Como qualquer outra criança, o primeiro contacto que se tem é com o professor. Comigo foi o mesmo, tive a sorte de fazer o ensino primário até à 4.ª classe na aldeia onde nasci. Antes, nunca pensei que um dia viria a ser jornalista, mas, de facto, gostava muito de ler jornais e acompanhar sobretudo a parte política. Confesso que muitos dirigentes com os quais trabalhamos hoje já os conhecia, através dos nomes que via e ouvia na Imprensa, principalmente pela rádio.

DF: Concretamente, o que mais gostava de acompanhar na Imprensa?

SP- Eu gostava muito de acompanhar, por exemplo, os discursos do saudoso Presidente Samora Machel, por isso tenho uma boa parte de colecções da revista Tempo, que, na altura, era o único meio de comunicação que quase trazia na íntegra os seus discursos, e acompanhei quase todos, se calhar pode ser exagero, mas tenho uma boa parte em casa.

DF: Disse que antes nunca pensou que um dia seria jornalista. Qual era o seu sonho de infância?

SP- Confesso que a minha primeira paixão foi a de um dia ser professor, como qualquer criança acredita, mas à medida que ia crescendo, comecei gostar também de falar inglês e pensei em ser um diplomata, esses foram os meus primeiros sonhos, ainda na província de Inhambane, como aluno. Mas, já na década de 1980, quando passei para o ensino secundário geral médio, sou colocado no Exército, onde fiquei algum tempo, mas, devido a problemas de saúde, fui devolvido à Educação. Naquela altura, depois de terminar o ensino médio, tinha que ficar à espera da colocação para obter outro nível. Quando faço a 11.ª em 1987, fico à espera da colocação, isso na Escola Pré-universitária de Chókwè, perto de Nwachicoluane. De novo, o meu nome sai para a Defesa. Acredito que os meus antepassados nunca gostaram que eu fosse militar. Portanto, fiquei dois meses na Direcção-Geral de Quadros, aqui em Maputo, então de novo fiquei bastante doente e devolveram-me de vez para a Educação. Lá no Ministério da Educação, Ana Rita Sithole, que tinha sido a minha directora na Escola Secundária Emília Daússe, conhecia-me muito bem, considerava-me um aluno disciplinado e então prontificou-se a trabalhar no sentido de eu obter uma bolsa de estudos para Cuba, onde formar-me-ia em Medicina. No entanto, enquanto esperava pela dita bolsa, um colega meu da Escola Pré-universitária de Nwachicoluane, chamado Simão Anguilaze, que depois ficou PCA da TVM, disse me: “Simião, vai aguardar muito tempo por uma bolsa de estudo que não sabe quando vai chegar, enquanto aqui, internamente, na UP, UEM, ISRI, as aulas já começaram!”. Foi assim que ele acabou me convidando para a Escola de Jornalismo, onde ele já estava a estudar, isso no decorrer do ano de 1987, e em um ano e meio fiz a minha formação da teoria e prática.

DF: Quem são os outros jornalistas que fizeram parte deste curso nessa altura?

SP- Simão Anguilaze, João de Brito Langa, Gil de Carvalho, que depois se tornou chefe da secção de desporto no jornal Notícias, João Matola, que foi delegado da RM em Nampula, Nelson Saúte, Moisés Mabunda, que era chefe da turma e foi chefe de redacção do semanário Domingo, e tantos outros.

DF: Depois da formação de cerca de um ano e meio, como é que foi a sua integração no mercado de emprego?

SP- Quando terminámos o curso de Jornalismo, seguiu-se a fase de estágio. Nós escolhemos, na altura, fazer o estágio na Televisão de Moçambique, pois havia muita facilidade, bastava terminar o curso, o estágio, e pronto, já tinha colocação. No entanto, ficámos seis meses a estagiar na TVE, eu e o Anguilaze andávamos colados. Por conta disso, até hoje há pessoas que fazem confusão entre Simião Ponguane e Simão Anguilaze, porque sempre andávamos juntos. Então, quando terminámos o estágio, voltamos à escola e lá fomos perguntados onde queríamos trabalhar, porque, na altura, havia a TVE, a RM, o Jornal Notícias, o Diário de Moçambique e a Agência de Informação de Moçambique. Portanto, decidimos que queríamos voltar para a TVE e assim aconteceu. Começámos a trabalhar em Setembro de 1988. Na altura, o chefe da redacção era Calane da Silva, que foi um grande professor, o melhor chefe de redacção que já tive, o sub-chefe da redacção era Armindo Chavana. Mas a integração foi boa, apesar de que nós não sabíamos nada, na altura, como ainda éramos estagiários, mas o tempo foi ditando.

DF: Ponguane foi formado como jornalista, fez sempre televisão e é na mesma televisão onde se encontra até hoje. Já pensou em fazer outras aventuras? Outras casas, eventualmente?

SP- Costumo dizer que em Moçambique não vou sair da TVM para estar num outro órgão de informação. Creio que só tenho mais uns 10 ou 11 anos para atingir a reforma. Então seria um mau gesto. Acredito que sou uma pessoa disciplinada, sendo assim, não é de um dia para o outro que a TVM pode  me expulsar.

 

Era proibido passar imagens de Dhlakama na TVE

DF- Hoje, como jornalista da televisão, sente-se livre em termos de abordagem dos temas?

SP- Eu costumo dizer que se em algum momento houve censura, eu sou uma pessoa com muita sorte. Começámos a trabalhar como jornalistas numa altura em que o país estava numa situação de abertura, em 1988, já com o Presidente da República Joaquim Chissano. Naquele ano estava a tentar fazer auscultação sobre a abertura do país para o sistema multipartidário, e foi quase que o primeiro ano mais forte do ponto de vista de implementação do Programa de Reabilitação Económica (PRE). Então, havia alguma abertura, por isso nós não sentimos tanto aquilo que os jornalistas que trabalharam nos tempos do partido único encararam. É verdade que, em 1988, quando eu entrei na TVM, ainda se escrevia bandidos armados numa implícita referência à Renamo, não se podia passar imagens de Afonso Dhlakama, de Jonas Malheiro Savimbi, falecido líder da UNITA, porque eram figuras contestadas politicamente. Mas lembro-me que, no ano seguinte, decorreu a histórica e famosa Cimeira de Gbadolite, em que o Presidente Chissano ia para lá, e a TVM obviamente cobriu eventos públicos do chefe de Estado. Foi fazer cobertura e trouxe imagens de Savimbi, porque era uma cimeira de discussão da paz na região e que versava sobre o conflito angolano. Foi então que começámos a passar as imagens de Savimbi. E não de Afonso Dhlakama. As imagens do líder da Renamo só começaram a ser passadas um pouco antes dos Acordos de Paz, rubricados em 1992, na capital italiana, Roma.

DF- Mas a televisão tinha imagens dele?

SP- Tínhamos, sim, imagens dele, porque, como televisão, gravávamos. Havia uma fonte de segurança que monitorava os canais estrangeiros, sobretudo os sul-africanos, e funcionava no mesmo prédio onde a TVE funcionava na altura.

DF- E qual era o vosso sentimento, como profissionais, não podendo falar de um líder de um movimento rebelde?

SP- Particularmente, não me doía tanto, porque não tinha ainda muita experiência como jornalista, estava conformado com a situação. Podia doer muito para as pessoas com muita experiência na área, que sabiam qual era o significado daquela situação. Nós que vínhamos da escola, ou seja, todas as crianças sabiam que só a Frelimo era um partido sério, o resto tratávamos como bandidos armados. É verdade que, pelo interesse pessoal, escutava várias rádios, por exemplo, nos meus tempos de escola, quando já frequentava o ensino secundário, ouvia as rádios RSA e BBC, acredita que estes canais serviram também para complementar a minha formação como jornalista. Então, quando já íamos crescendo profissionalmente, paulatinamente percebíamos que a situação não estava boa.

DF- Na sua carreira como jornalista chegou a ocupar vários cargos. Como é que se sentiu ao longo dos dois anos em que foi director de Informação da TVM?

SP- O nosso país teve três chefes de Estado até agora (2013). Samora Machel, Joaquim Chissano e Armando Guebuza. Cada um com seu carácter de governação. É verdade que hoje em Moçambique há muitas escolas de formação de gestão e de liderança, mas cada pessoa é uma pessoa e cada um tem uma maneira de governar. Portanto, a TVM também passou por fases de ter PCAs. Quando eu entrei, antes de passar a ser uma empresa pública, o director-geral era Botelho Muniz, que era uma pessoa de carácter centralizador e os seus directores tinham pouco espaço de manobra, e isto é comparado com aquilo que foi Samora Machel. Depois tivemos um outro PCA, que era Arlindo Lopes. Este tinha a desvantagem de desconhecer o sector de televisão, era um jornalista muito experiente, mas a televisão é uma área muito diferente de outro tipo de jornalismo, e então não dava espaço para os seus directores fazerem aquilo que sabiam. Depois passamos para Simão Anguilaze, que foi director de informação durante oito anos e passou a PCA, e eu fui chefe de redacção durante sete anos. Trabalhei com Simão Anguilaze e Armindo Chavana como meus directores de informação, e essas duas figuras conheciam a televisão, porque são da televisão. Portanto, às vezes, o espaço de manobra de um director que trabalha com um PCA que conhece a televisão é aparentemente reduzido, de maneiras que o director não pode pensar que está a fazer o trabalho sozinho, há um PCA e, por sinal, é o administrador do pelouro da informação. Pelo que eu não senti tanto peso, porque tinha um PCA que era da televisão e conhecia melhor a casa, daí que foi fácil trabalhar nessa área, da mesma maneira que foi fácil trabalhar como chefe da redacção durante cerca de sete anos, que serviram para uma verdadeira aprendizagem.

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